terça-feira, 12 de agosto de 2008

Esquina do Mundo - A hora do Cão Lobo

Cláudia Magalhães

Três amigos; Um bar!
Amores, amizade, inveja, traicões...
O acaso rege o destino de homens e mulheres
Na esquina do Paraíso com o Inferno
Onde a hora é sempre dezoito horas
Hora do cão lobo
A esquina do Mundo
Um mundo à beira da tragédia
Regidas não por mãos humanas
Mas pelo incompreensível.


(Trecho da peça teatral "Esquina do Mundo - A hora do Cão Lobo")

Dezoito horas... Esquina do Paraíso com o inferno... Há pouco, o Sol beijou a lua e sob o canto suave da Ave Maria, eles fizeram juras eternas de amor. A Rainha da noite, excessivamente romântica, cheia de saliva, fez amor nos astros e estrelas, deliciou-se na boca do seu amante, virou música, verso, prosa... Ele vai embora. Vazio. Há pouco, ele a pegou por trás e ela sentiu toda a sua paixão escorrer pelo seu sexo, descer até a terra e formar um mar de sangue...
Esse sangue nos revela um prédio de um vermelho extravagante, onde, no térreo, funciona um bar popular, destes encravados nos becos das grandes cidades. De um lado funciona o salão com mesas e cadeiras muito simples, posters de time de futebol e cartazes com dizeres como "Protegido por Deus" e "Fiado só amanhã", do outro lado, separada por um enorme balcão, uma pequena cozinha. Em cima, dois kitnets, um de Rato e o outro de Zé e Ceição. Nos vários sets a vista: Esperança arruma o quarto de Rato e se arruma, incansavelmente; Zé, no seu quarto, bebe e olha fixamente para o relógio de parede; Gardênia cantarola na cozinha, exultante; No salão, Patrícia toma café com bolacha e escuta Rato, que sentado com os pés na lama, canta um chorinho acompanhado por dois boêmios que estão em uma mesa próxima; Teobaldo está sentado no meio da escada observando a lua que brilha incansavelmente no céu, cheia de tristeza, melancolia, poesia, contrastando, e por isso mesmo, enaltecendo a decadência do lugar.

(Salão do bar)


RATO:

Não me condene, não sou vagabundo

Nem tampouco vigarista

Sou um boêmio, um sonhador

Eu tenho alma de artista.

Na mistura do céu e do inferno

Encontrei a esquina do mundo

Da vida, do poeta,

Do doutor, do moribundo.

Aqui ele ri, ele chora,

Toma cana com limão e mel

Toma rum com coca-cola

Com os pés na lama

Olhando para o céu

Desabafa, se esfola

Vai afogando a sua dor.

É a Ribeira dos becos

Da lama, da amargura

Onde tudo e todo sentimento se mistura:

Fé, Cajú,

Sangue, Coentro,

Papa-Figo, Urubu,

Medo, Tormento,

Black-Out, Gentileza,

Virtude, Desalento,

Badalo, Fineza,

Tristeza, Lamento.


Cascudo, História,

Siqueira, Poesia,

Djalma, Vitória,

Navarro, Alegria.


Tributino, Destreza,

Carrapicho, Flores,

Zé Areia, Esperteza,

As Marias, Os Amores.


Coragem, Velocidade,

Loucura, Lambretinha,

Óvni, Verdade,

Nazi, Meladinha.

É do resultado dessa mistura

Que se faz esse lugar.

Venha, amigo, se sentar

Não precisa documento

Basta só ter sentimento

E entre uma alegria e outra

Um pouco de lamento

Porque daqui ninguém sai isento

Sem vontade de chorar!





16 comentários:

Márcio disse...

Texto com gosto de fim de noite (ou começo?). Muito bom! Parabéns!

Cefas disse...

Lírico, poético, belo, um prenúncio para a beleza e tragédia que virá. Ah, bicha danada de boa dramaturga e escritora de primeira. Que lancemos logo esta peça e que noano que vem ela ganhe os palcos natalenses, preferencialmente na rua. Beijos.

Rodrigo Soares disse...

Mais um dos belos e indescritiveis textos de Claudinha que eu li! Cada vez mais envolvente.

Adorei Claudinha,Parabens, beijos mil!!

Gilmar Leite disse...

Como sempre o lirismo romântico presente nas palavras, que em meio a becos e ribeira canta em uníssono os poemas dos desejos e encontros. Valeu. Bjs

Ricardo Medeiros disse...

Claudinha, o texto tá muito lindo e envolvente. Fiquei arrepiado!Lindo e muito sensível. Tem tudo a ver com você...

ON THE É (nada do que não era antes, quando não somos mutantes) disse...

assim, como uma rosa desfolhada, desfila a vida do povo que chora, ri, canta. assim, com teus olhos de lince, revira e respinga tudo do que o coração humano transpira.
beijosss

Cgurgel

Cida disse...

Esquinas...tantas eu parei e pensei se ali começava ou continuava minha vida musical...que vc ganhe o povo e as ruas dessa cidade e depois um mundo com essa sua verdade !!!
parabéns, florzinha !!!!!

leo disse...

Que texto esplendido e viceral!!! É um pouco de mim, dos outros e de nós. São as voltas que o mundo dá... Mais uma vez como ninguém voce retrata a vida louca com poesia e amor... Estou embriagado de prazer... Sucesso sempre! O céu e o limite... "Vamos que o tempo é pouco muito pouco para quem busca o céu" Lembra? Adoro... Parabéns!!!

Regina disse...

"É a Ribeira dos becos
Da lama, da amargura
Onde tudo e todo sentimento se mistura"
De uma beleza, que só com tamanha sensibilidade se consegue descrever.
Parabéns Claudinha, e não pare.
bjs

Délia disse...

Delicioso, poético, intrigante...
amei.
Quero ver encenado!

Moacy Cirne disse...

Pela pequena amostra, é o caso de se afirmar: a Esquina do Mundo é também a Esquina da Poesia. Com naturalidade. Com emoção. Esperemos pelo texto completo; esperemos pela peça encenada. Beijos e queijos (do sertão).

euzinha disse...

kMãezinha,me senti na Ribeira de outrora,dos becos e vielas que inundam nossos sonhos boêmios...
Envolventemente terno.
Te admiro e admiro o seu modo de colocar em form a de texto os sentimentos que povóam esse coração imenso.
beijo e benção
sempre!Mãezinha!

Lecy Pereira disse...

Enxergo o olhar da contemporaneidade nesse trabalho. Que bom quando encontramos autores que resignificam esse tempo sem escambotear para a violência plena.

Lecy Pereira disse...

Enxergo o olhar da contemporaneidade nesse trabalho. Quem bom que ainda há autores que resignificam esse tempo sem escambotear para a violência plena!
Sucesso!

Nalva Melo cafe salão disse...

..desejo na esquina, o prazer de fazer a concepção das personas com minha palete de cores etílicas..conte comigo! bjos

Pinho disse...

ESQUINA DO MUNDO
Um texto profundo, viceral que fala de gente, de vida, que nós os loucos que vivenciamos esses lugares entendem como é carnal, sentimental e verdadeiro.

Parabéns "grande" Cláudia Magalhães.
Beijos