domingo, 15 de novembro de 2009

Meio Fio

Cláudia Magalhães



Há dias que possuem vida própria e são dotados de uma consciência má, hábil, que adora o perigo das coisas subterrâneas, de tudo o que nos causa espanto, nos fazendo em poucos segundos beber a beleza e vomitar os desejos de uma vida inteira. Em mais um desses dias, sentado no meio fio, ele mergulha a mente na idéia de felicidade, aproveita a distância da mulher amada, toma por vezes o seu lugar, moldando-a de tal forma que ela atenda a todos os seus desejos e, em menos de uma hora, mesmo ausente, ele jura ser capaz de apalpá-la.
O barulho de algumas pessoas se aproximando o faz voltar a realidade e ela escapa dos seus pensamentos. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras que experimentara pela primeira vez na noite anterior junto àqueles mendigos. Ela lhe permitiria ir até o outro lado do mundo. Lá, vestido com elegância, encontraria o seu amor em algum sonho, a cobriria de flores e depois ficaria em silêncio até acalmar o espírito. Pega a garrafa de cachaça e toma um gole. Aquela seria a última garrafa, depois voltaria pra casa. As pessoas que passam o olham com desprezo. Idiotas! Imbecis! O que eles sabem sobre o amor?, pensa vendo o Sol se aproximar da sua cama de papelão improvisada no canto da parede. Há quanto tempo estaria naquela rodoviária? Seriam dias, meses ou anos? Perdera a noção do tempo. Estava exausto, não pregara o olho a noite inteira e a dor de cabeça que sentia lhe queimava o juízo. Vê o primeiro ônibus da manhã chegando. Hoje eu volto pra casa. Essa é a última garrafa. Vou voltar e passar um ano sem beber!, pensa tomando mais um gole da bebida.
Levanta e vai em direção ao banheiro. Observa, por alguns segundos, a sua imagem no espelho quebrado. Uma imagem tão distante do homem bem-sucedido de algum tempo atrás. Vê o rosto oleoso, a barba cheia e o olhar triste. Sente uma enorme vontade de se esconder, uma forte angústia no peito. Lava o rosto, as mãos, joga água nos cabelos longos e sujos e se penteia com os dedos. Toma o último gole da garrafa e a joga no lixo. Pronto. Aquela foi a última, agora voltaria pra casa. Sai do banheiro catando no bolso algumas moedas que mendigara na noite anterior e compra um pastel de carne. Sente a massa entalada na garganta. Força-se a comer, precisa aliviar a dor no estômago. A cada minuto a sua angústia aumenta. Sente-se depressivo, torturado. Preciso beber algo, pensa catando algumas moedas no bolso. Compra mais uma garrafa de cachaça, prometendo a si mesmo que aquela seria a última, depois pegaria um ônibus e voltaria pra casa. Senta no meio fio e começa a beber. Sente-se eufórico, leve e, de certa forma, feliz. A angústia desaparece dando lugar a uma imaginação rara, sem alicerces no tempo, nem passado, nem presente, nem futuro. Uma imaginação de algum lugar sagrado dentro dele, que desconhece ou ignora o seu drama. O rosto da amada lhe aparece, evocando todas as palavras que lhe são caras: amor, perfume, prazer, paz, sonhos... Ele mergulha a cabeça num mar vermelho de desejos e ao sabor da bebida, ela faz amor com seus demônios e tem filhos. Centenas deles.
O Sol já se despede enquanto ele observa a garrafa vazia. Sente um medo terrível. Tudo o que não vem de dentro dele o assusta, é pequeno, sujo. Gosta da solidão da bebida, de viver o que não existe. Ele ama. Cata as últimas moedas do bolso. Tinha o valor exato da passagem do ônibus. Agora eu volto pra casa, pensou mais uma vez. É isso. Voltaria e começaria uma nova vida. Ela se foi e deve estar feliz com isso. Não iria sofrer por ela. Vadia e fútil, com certeza já estaria seduzida por uma beleza nova. O mundo é tão grande... Mas o seu coração recusa a desprezar o que ama e se põe inquieto. Prepara dentro dele um buraco cheio de abandono, amargura e desilusão e misturado a esses monstros só pensa em lhe ferir. Ele chora. Chora porque procura aquela que perdeu, mas aquela que perdeu não o procura. Chora porque ela tem asas e ele, os pés na lama. Precisa de uma bebida. Ela o ajudará a sentir melhor. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras...
Pega o dinheiro no bolso e compra mais uma garrafa. Senta no meio fio e toma um gole. Esta é a última, depois eu volto pra casa, pensa vendo os seis mendigos se aproximando ao longe. Seis, seu número da sorte. Ao menos passou a ser depois que a conheceu, constatou sorrindo, sentindo a angústia, novamente, ir embora.

20 comentários:

Luiz Lima disse...

Oi,Claudia,
Sempre Observei com um certo fascinio o fenomeno, que encontro em toda parte do mundo, do vagabundo esmolè, o "hobo", aquele cidadao que perambula fétido, enegrecido de fuligem, solitario, carregando algum saco, completamente alheio a realidade ordinaria. Ja ouvi dizer, e eu acredito, que estao mais proximos da "verdade".
Este seu conto me fez lembrar essas figuras.
Um abraço,

Mirse Maria disse...

Lindo, Cláudia!

Mas estou aos prantos.
A cena eu conheço, pelo meu ex que era alcoolatra. Todas as vezes e todos os dias seria o último . Nunca o reprimi, sempre o apanhava na rua dormindo com mendigos. Mas... ele era feliz. Depois que parou de beber, ficou amargurado e rude.

Assim como disse o amigo Luiz Lima! Deve existir um tipo de felicidade nestas figuras.

Maravilhoso!

Parabéns, Cláudia!

Beijos

Mirse

Sulla Mino disse...

"...Ele mergulha a cabeça num mar vermelho de desejos e ao sabor da bebida, ela faz amor com seus demônios e tem filhos. Centenas deles..." Nossa, nossa...Cláudia, sempre me encanto quando venho aqui...Cada um é feliz de um jeito, qualquer jeito. Me fez lembrar de muitas pessoas, muitas coisas...Parabéns!! Aguardo sua visita. Bjks, Sulla Mino

José Rosa (ZeRo S/A) disse...

"Chora porque ela tem asas e ele, os pés na lama". Adorei isso. Beijo grande.

Rachel Rabelo disse...

Cláudia, agradeço o convite a passear pelo seu espaço tão maravilhoso e dotado de particularidades.
Parabéns...E, vou sempre voltar!
Beijos
Rachel Rabelo

Luciene Danvie disse...

Não sei da linha tênue; do "meio fio", que separa o desengano, da morte do amor. Às vezes, acho que é tudo a mesma coisa.
Parabéns pela descrição.
Bjos.

Nivaldete disse...

Um jeito de compreender a humanidade... Você entrou na alma do bebedor, achou-a lá, no mais fundo... Bonito! Um beijo.

Regina disse...

Vc conseguiu descrever a angústiante fraqueza do alcolista, com ternura e sensibilidade.
Grande bj

Juliana disse...

O torpor. O companheiro fiel da solidão quando não conseguimos suportar as perdas. O alcool, um de seus principais agentes... A dor mascarada em cada um de nós... Adoro o jeito como tira-nos a máscara-maquiagem. Vida longa a tuas palavras-oceano!
João Júnior.

Francione Clementino disse...

Oi Cláudia, tocante o seu conto.
Costumamos ter um pouco de receio dos mendingos, justamente pq é um mundo diferente do nosso, eles vivem uma realidade meio que "própria" deles e não conseguimos adentrar nela, por isso, o medo!

Parabéns pelo conto!!

Zé Martins disse...

"... não sei se é dor ou caminhos curtos na busca da felicidade,
não sei se é exagero ou pressa do desejo este estado ébrio,
não sei se a embriagues corrói a felicidade que o medo esconde,
nem sei se o medo é tudo isso que não digo, me embriago e digo o que quis, e começo no fio da navalha,
Principio, meio enfim, fio".
"Quem viu a cara da felicidade?

meliseluzardo disse...

Sempre tentei decifrar o que passa na cabeça dessas pessoas...vc imaginou ou alguém lhe relatou esses sentimentos?
Adorei ler...não consegui parar até a última palavra...parabéns!

Bené Chaves disse...

Oi, Cláudia: antes de mais nada meus parabéns pelo seu blogue. E espero que ele tenha o sucesso merecido. E uma boa sorte tb!
No mais é dizer que vc demonstra segurança e um estilo próprio nas entrelinhas de suas histórias. Voltarei depois para lhe fazer outra visitinha amiga.

Beijos literários...

Rodrigo Soares disse...

Como sempre, Claudinha foi magnífica ao criar este conto! Creio que depois deste, irei começar a olhar os mendigos com outros olhos. Muito fascinante! .. " Chora porque ela tem asas e ele, os pés na lama " - Mega profundo!

beijão Claudinha !

Bené Chaves disse...

Oi, Cláudia: passando aqui à cata de novidades. E aproveito para desejar-lhe um ótimo domingo e a semana seguinte melhor ainda. E aí, como vão os acontecimentos pré-natalinos?

Um beijo festivo...

Bené Chaves disse...

Oi, oi!
Cadê vc menina, abandonou o blogue?Saudades de passar aqui...

Beijos...

Meire disse...

Cláudia, muito lindo o conto !! Você demonstrou o que é o sofrimento do alcoólatra: ele é um poço de sentimento represado.

Beijos, linda!
Meire

Leonardo Prata disse...

c é o maximo Clauinhaaa bjoooo...

Fanzine Episódio Cultural disse...

O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

doni seo disse...

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