sexta-feira, 7 de maio de 2010

Luz e Sombra


Cláudia Magalhães

Seja bem-vindo! Estava em companhia da solidão com meus devaneios e delírios, mas sua presença trouxe grande conforto ao meu coração e tenho absoluta certeza que nosso convívio será bem agradável. Deixe o espírito livre. Leia com os olhos da alma. Livre-se de tudo o que causa novas formas de aprisionamento. Há ou não algum juízo no amor? Não fuja! Vamos, responda! Eles estão aqui em suas realidades de luz e sombra e interrogam cada um de nós.

Ela não dorme desde que nasceu. Ele, todas as noites, tem pesadelos. Quando acordados, são estátuas que sonham voando. Foram gerados num lugar qualquer, e como todo lugar no mundo, habitado por anjos e demônios. Estes, criados do excremento, andam nus, e por serem desprovidos de alma não sentem culpa, nem remorso. São superficiais, fúteis, carregam dentro de si o oco do mundo. Os primeiros, por lhes faltarem a carne, são dissimulados, hipócritas, gozam para dentro, sufocam-se com o próprio gozo para camuflarem suas fraquezas. Nenhum deles é a criatura perfeita que empresta graça e divertimento necessários ao jogo da vida. Falta-lhes o amor, que nesse caso nos provaria o equilíbrio de tudo o que há sobre a terra. Por isso, vez ou outra, um anjo nasce revestido da carne e um demônio descobre dentro de si uma alma. Foi o que aconteceu com nossos protagonistas, os primeiros a experimentarem esse sentimento feito de luz e sombra.

Eles se conheceram numa noite onde ninguém poderia roubar as vontades de uma lua grávida de desejos, nem esfriar os girassóis que buscam o céu. As estrelas, ansiosas para testemunharem o nascer do amor, trocavam incansavelmente de lugar, alimentando, até hoje, os sonhos dos que buscam a saliva que já tem a cor, o cheiro e a medida exata para fazerem ateus acreditarem no divino e que tornam mais escorregadios os dias. Eles se procuraram, se encontraram e se descobriram perdidos num sentimento, até então, sublime. Beijaram-se. Sentiram frio. Sentiram calor. E tudo sobre a terra parecia ter um fim, menos o sentimento que, naquele instante, fazia seus corações flechados doerem e, perdendo o fôlego, gemeram, sem entenderem ao certo o que queriam dizer. Com as carnes escancaradas, lambuzaram-ze, estouraram-se, fartaram-se de vida e tudo era suor, gemidos e paz do início dos tempos. Eram almas disparadas por todos os lados. Seus olhos carnívoros comiam o que de um subia ao céu e o que do outro caía sobre a terra. Exalavam amor pelos olhos, pelas mãos, pelos sexos inchados, descarados, vivos, e no vai e vem do amor, quando um saía do outro, tudo era fogo do inferno, assavam demônios e quando, novamente, se encaixavam, tudo era dilúvio, afogavam anjos e viravam pérolas no fundo do mar. Fartos no gozo deram risadas, sem perceberem que a carne quando ama torna-se transparente. Tudo no outro era tão urgente que ignoravam os anjos e demônios que habitam a terra e que, até hoje, morrem em vida por falta de amor, do perigo que estes representam e que uma imagem perfeita, sublime, despertam nestes os mais obscuros desejos.

Certo dia, enquanto ele observava maravilhado sua amada em sono profundo (depois que se conheceram ela passou a dormir e ele começou a sonhar. Coisas do amor...), aproximou-se dele a alma falsa de um anjo.

Anjo: O que você sente por essa mulher? - pergunta com voz doce, suave.
Ele: Amor...
Anjo: Ela, o que sente por você? - insiste.
Ele: Ela me ama.
Anjo: Tem certeza disso?
Ele: Eu sinto...
Anjo: Você é um anjo, ela é um demônio... Ela já foi por você contrariada?
Ele: Por que faria isso?
Anjo: Experimente dominá-la... Não permita que ela fique por cima na hora do gozo, só assim você poderá ter a certeza do seu amor.

E o anjo se despediu deixando nele um tormento e, com este, um enorme poder de imaginação. Ela despertou com o peso do corpo amado sobre o seu. Gostou. Amou. Sentiu seu corpo repleto de prazer molhar a terra. Depois de se deixar dominar por um tempo, tentou inverter as posições, mas ele a impediu com firmeza.

Ela: Por que quer me manter sob a tua sombra? - pergunta com doçura.
Ele: Você é uma mulher, portanto deve estar sob mim, suportar o peso do meu corpo.
Ela: Entendo que somos terra e vontades. Fomos criados do mesmo barro, por isso somos iguais. Vamos inverter nossas posições. Assim, seremos iguais em corpo e em alma - diz tentando, novamente, inverter as posições, mas ele a impede.
Ele: Sou um anjo e você, um demônio. Minha carne foi criada do pó puro e a tua, do excremento. Portanto você é submetida a mim.
Ela: Maldito! Mil vezes, maldito!, grita sentindo-se ferida, humilhada.

Terminada a discussão, desfaz-se o casal. Ela descobriu nele a vaidade de um anjo e ele encontrou nela o orgulho de um demônio. A dor contida endureceu seus corações deixando somente um enorme vazio, uma angustiante sensação de fracasso. O mesmo coração que amava, que tinha para o outro todas as atenções, todos os cuidados, criou, naquele momento, um jogo de ofensas que multiplicava as sombras da terra e o mundo perdeu a cor. Com essa competição transformaram-se em sanguessugas. Ela foi amar com os demônios, ele com os anjos. Colocaram-se nas mais humilhantes situações. Engoliam gozos que não lhes permitiam cantar depois, que lhes secavam a garganta e lhes abandonavam da própria imagem. Queimaram as flores, afogaram os desejos, ficaram fartos de solidão. Mas o ódio era apenas uma espécie de verniz sobre um amor sufocado que insistia em ficar e a vida já cansava seus corações. Passaram a procurar um pelo outro. Ele entrou no inferno, ela no Paraíso. Correndo na mesma velocidade, saíam de um para o outro, numa busca infinda, pois enquanto um olhava para o céu o outro mergulhava em águas profundas. Cansados daquela busca, recusaram-se a viver naquele mundo preto e branco, de outra forma que não fosse ao lado de quem lhes apresentou a poesia, a música e o lirismo. Saltaram da vida e viraram lenda. Depois de um curto momento de escuridão, encontraram-se parados, nus, flutuando no céu. Nunca mais seriam bonecos de barro, e sim, o Sol e a Lua. Mas o tempo do amor não perdoa as fraquezas. Eles não poderiam se tocar, nunca mais... Ele é o dia, ela é a noite. Ela voltou a não dormir e ele, todas as noites, a ter pesadelos. Descobriram, tarde demais, que não há beleza em ter defeitos, a única saída é sonhar que eles podem ser amados na dor, somente sonhar, pois há sempre uma luz para cada sujeira e tudo passa a ser verdade. Agora, somos do amor uma lenda. Os poucos anjos com carne e demônios com alma serão pequenos diante de nós, o amor será tão raro quanto um eclipse e todos aqueles que tentarem nos matar, morrerão, ela falou com tristeza.

Por isso, caro amigo, tenho os pés na lama, mas o olhar voltado para o céu. Quero os naufrágios e o fogo do inferno e não ser, simplesmente, um anjo ou um demônio. Não quero oferecer minhas misérias na correnteza da vida, nem guardar do amor somente gozos e suspiros. Mas, apesar de querer enfeitar minha vida e virar lenda, de querer o perigo para obter o descanso, pergunto-lhe, novamente: Há ou não algum juízo no amor?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amor em Paris


Cláudia Magalhães


Clara está no tempo dos amores mal curados, onde o gozo é controlado por um anjo ou demônio, e este ou aquele, deitado a seu lado, com a mão esquerda torna febril e trêmula a sua fenda e com a direita injeta em sua mente doces recordações do passado, paralisando-a por completo.
É meia-noite. Há horas, ela permanece imóvel em sua cama, lugar onde dormiu por seis anos com um amor que, por ingratidão e egoísmo, há uma semana não está mais ali. Algo difícil demais para se compreender e que torna loucos os que andam pela terra.
Ela leva a sua mão em forma de concha até o sexo, pois é assim que rezamos para o amor, e sonhando com os míseros segundos em que tocaria as estrelas, tenta acariciar sua lua úmida até ela tornar-se, novamente, seca, fazendo girar mais rápido o mundo, mas as lembranças do passado estrangulam seus dedos, enchendo-os de verrugas e vergonha.
A enorme vontade de tê-lo, de possuí-lo, a faz perder o juízo. Vou a Paris. Vou em busca de Vinícius!, pensa. Segundos depois, ela enfrenta descalça as ruas desertas e o frio da madrugada, usando apenas seu vestido longo, florido que, por vezes, usava como camisola. Seus gritos entram pelas frestas das portas e das janelas quebrando o silêncio que comanda a decência. Quando um ou outro a pergunta, O que aconteceu, mulher?, ela responde, Vou a paris. Vou em busca de Vinícius!, e segue andando pelas ruas do outro lado do mundo como se fosse a dona delas. Pergunta a todos os que cruzam seu caminho por um homem alto, barbudo e grisalho e diante do silêncio ela responde, Ele está em Paris! Ele está me esperando em Paris! E segue falando da importância das mãos, pois nelas moram as vontades mais urgentes, falando da imensidão do mundo e do desejo que tinha com o homem amado de morar na Cidade dos Sonhos, para novamente, falar das mãos e do desejo, repetindo, incansavelmente, as mesmas palavras. Tenta, por vezes, se calar e escutar as histórias sem pé nem cabeça dos homens, mas ela tem pressa em se livrar dos sofrimentos da vida e segue sem escolher o caminho e sem saber ao certo quem ela é, molhando os pés na lama acreditando que é o mar, vivendo de esmolas, bebendo cachaça ou conhaque, pedindo a benção a Deus que segurando-lhe o juízo não precisa fingir que lhe deu, até adormecer nos bancos das praças ou nas portas das igrejas e sonhar voando.
Uma hora depois que ela partiu, Vinícius, arrependido de mais uma vez tê-la abandonado, entra no apartamento. Vou pedir perdão e milhões vezes milhões de vezes direi que a amo e nunca mais a farei chorar!, pensa, procurando-a com o peito sufocado pela saudade, mas é tarde demais.
Ele a encontra no quarto com a alma liberta. Ora caminhando como uma rainha, ora curvando-se e implorando coisas ao vento. Minha carne foi criada do pó impuro. Meu cérebro, uma grande duna, com a memória e os desejos dos ventos, encheu com o mel do mundo e com os ferrões das abelhas o meu sangue, que de tanto morrer, gerou em meu peito um enorme coágulo chamado coração. Uso salto, quero meus pés com gosto de rua na direção dos abismos. Há muito tempo, o amor me ensinou a cair, agora quero aprender a voar, diz olhando para ele, mas nada vê. A sua carne está acorrentada pelas vontades de sua alma, que cansada de sofrer liberta-se de si mesma, vai a todas as partes do mundo e confunde-se com outras. Desatenta e livre, muda de vontade de uma hora para outra, se reinventa a todo instante. Suas pernas encontram becos escuros, lama, sargaço, o mar e a imensidão das águas, enquanto sua cabeça de lua abraça o cruzeiro do sul, a Ursa maior, as três marias, e não somente elas, mas toda a constelação. Múltipla, infinda, ela é a dama, a mendiga, a poeta, a vítima, a algoz, a que ri e chora ao mesmo tempo. Ela é Clara, a sua Clara! Ele observa a mulher que ama, que partiu sem volta para a cidade dos sonhos, deixando em seu peito uma chuva que nunca vai parar e os seus olhos enchem-se de lágrimas.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A queda dos Anjos

Cláudia Magalhães


Morrerei, pontualmente, às dezoito horas. Hora da queda dos anjos quebrando suas máscaras, fazendo uivarem os lobos da terra. A minha alma branca, mistura das cores e manchas do meu passado, partirá vendo o Sol, com seu hálito quente, levantar a saia da Lua e entregar-lhe os desejos da saliva do dia, fazendo-a parir estrelas.
Não! Não faço uso do deboche, nem perdi o juízo, aceito minha loucura e por isso considero-me são. Vivo de saudade e de milagres e afirmo que, pontualmente, às dezoito horas, soltarei a vida e descobrirei caminhos ocultos. Na companhia de uma bebida qualquer, papel e caneta, escreverei a última palavra do meu último verso, e nesse instante, Ela chegará com o seu amor hipnótico, me beijará apaixonadamente até que eu perca os sentidos. O meu corpo em riso libertará minha alma com tamanho desprendimento que faria chorar a mais terrível das criaturas. Em seguida, a seguirei devagar, sem nenhum alarde, pois assim fazem os que sabem morrer.
Ah, Morte amiga! Amiga eterna! Razão da nossa infância, mocidade e velhice. Testemunha única e silenciosa de todos os nossos atos, sem perdão ou punição. O que eu era antes da tua existência? Loucura minha... Tudo nasce e morre, menos você, única certeza, presente ou ausente. Desde que você levou o meu amor, há seis meses, aguardo a sua chegada feito um morto-vivo. Quantas milhares de alegrias eu tinha e em todas ela estava presente! Vem, afasta-me dos cansaços da vida e deixa-me beijar aquela que amo e que, agora, veste-se de asas e desejos que fogem da terra. Leva-me docemente ao seu encontro, deixa-me dançar em seus braços e, juntos, amar a tua simplicidade sobre uma estrela qualquer. Faremos amor sem os limites da carne, somente o comando das nossas vontades em febre sob o teu perfume de flores. Se bater em nossos corações alguma tristeza, não há de ser nada, é a dor da ausência indo embora. Deixa-nos chorar por alguns instantes, vista-nos de sonhos e depois por ser você a solidão, essa enorme vontade de ir, nos esqueça. Seremos, então, inspiração para os poetas, bêbados e loucos, únicos que sabem amar com dignidade. Ah, espera! Doce e amarga espera! Adeus!

Ele abandona a caneta sobre o papel, transpira muito. Com o coração explodindo na garganta observa, finalmente, o relógio da parede marcar, pontualmente, dezoito horas. A ansiedade em sua alma é tão grande que lhe causa dor física. Abre a gaveta do velho birô de madeira e, segundos depois, ouve-se o barulho do tiro.
O fim tão desejado não veio de lugar algum. A queda violenta fez nuvens pesadas e cinzentas esconderem as estrelas, trazendo a chuva que, nesse momento, para muitos, não é bem-vinda. Estava derrotado por completo. Nenhum canto de amor, nenhuma posse ou território marcado, somente uma eterna agonia solta pelo espaço e que, a todo instante, pousa na terra que apaga as pegadas e guarda a verdade da carne, o pó, e a verdade dos homens, o tudo e o nada, provando que mesmo sem a sua existência ela continua a girar.

domingo, 15 de novembro de 2009

Meio Fio

Cláudia Magalhães



Há dias que possuem vida própria e são dotados de uma consciência má, hábil, que adora o perigo das coisas subterrâneas, de tudo o que nos causa espanto, nos fazendo em poucos segundos beber a beleza e vomitar os desejos de uma vida inteira. Em mais um desses dias, sentado no meio fio, ele mergulha a mente na idéia de felicidade, aproveita a distância da mulher amada, toma por vezes o seu lugar, moldando-a de tal forma que ela atenda a todos os seus desejos e, em menos de uma hora, mesmo ausente, ele jura ser capaz de apalpá-la.
O barulho de algumas pessoas se aproximando o faz voltar a realidade e ela escapa dos seus pensamentos. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras que experimentara pela primeira vez na noite anterior junto àqueles mendigos. Ela lhe permitiria ir até o outro lado do mundo. Lá, vestido com elegância, encontraria o seu amor em algum sonho, a cobriria de flores e depois ficaria em silêncio até acalmar o espírito. Pega a garrafa de cachaça e toma um gole. Aquela seria a última garrafa, depois voltaria pra casa. As pessoas que passam o olham com desprezo. Idiotas! Imbecis! O que eles sabem sobre o amor?, pensa vendo o Sol se aproximar da sua cama de papelão improvisada no canto da parede. Há quanto tempo estaria naquela rodoviária? Seriam dias, meses ou anos? Perdera a noção do tempo. Estava exausto, não pregara o olho a noite inteira e a dor de cabeça que sentia lhe queimava o juízo. Vê o primeiro ônibus da manhã chegando. Hoje eu volto pra casa. Essa é a última garrafa. Vou voltar e passar um ano sem beber!, pensa tomando mais um gole da bebida.
Levanta e vai em direção ao banheiro. Observa, por alguns segundos, a sua imagem no espelho quebrado. Uma imagem tão distante do homem bem-sucedido de algum tempo atrás. Vê o rosto oleoso, a barba cheia e o olhar triste. Sente uma enorme vontade de se esconder, uma forte angústia no peito. Lava o rosto, as mãos, joga água nos cabelos longos e sujos e se penteia com os dedos. Toma o último gole da garrafa e a joga no lixo. Pronto. Aquela foi a última, agora voltaria pra casa. Sai do banheiro catando no bolso algumas moedas que mendigara na noite anterior e compra um pastel de carne. Sente a massa entalada na garganta. Força-se a comer, precisa aliviar a dor no estômago. A cada minuto a sua angústia aumenta. Sente-se depressivo, torturado. Preciso beber algo, pensa catando algumas moedas no bolso. Compra mais uma garrafa de cachaça, prometendo a si mesmo que aquela seria a última, depois pegaria um ônibus e voltaria pra casa. Senta no meio fio e começa a beber. Sente-se eufórico, leve e, de certa forma, feliz. A angústia desaparece dando lugar a uma imaginação rara, sem alicerces no tempo, nem passado, nem presente, nem futuro. Uma imaginação de algum lugar sagrado dentro dele, que desconhece ou ignora o seu drama. O rosto da amada lhe aparece, evocando todas as palavras que lhe são caras: amor, perfume, prazer, paz, sonhos... Ele mergulha a cabeça num mar vermelho de desejos e ao sabor da bebida, ela faz amor com seus demônios e tem filhos. Centenas deles.
O Sol já se despede enquanto ele observa a garrafa vazia. Sente um medo terrível. Tudo o que não vem de dentro dele o assusta, é pequeno, sujo. Gosta da solidão da bebida, de viver o que não existe. Ele ama. Cata as últimas moedas do bolso. Tinha o valor exato da passagem do ônibus. Agora eu volto pra casa, pensou mais uma vez. É isso. Voltaria e começaria uma nova vida. Ela se foi e deve estar feliz com isso. Não iria sofrer por ela. Vadia e fútil, com certeza já estaria seduzida por uma beleza nova. O mundo é tão grande... Mas o seu coração recusa a desprezar o que ama e se põe inquieto. Prepara dentro dele um buraco cheio de abandono, amargura e desilusão e misturado a esses monstros só pensa em lhe ferir. Ele chora. Chora porque procura aquela que perdeu, mas aquela que perdeu não o procura. Chora porque ela tem asas e ele, os pés na lama. Precisa de uma bebida. Ela o ajudará a sentir melhor. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras...
Pega o dinheiro no bolso e compra mais uma garrafa. Senta no meio fio e toma um gole. Esta é a última, depois eu volto pra casa, pensa vendo os seis mendigos se aproximando ao longe. Seis, seu número da sorte. Ao menos passou a ser depois que a conheceu, constatou sorrindo, sentindo a angústia, novamente, ir embora.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As Fotografias

Cláudia Magalhães



O mal-estar que sinto antecipa o erro que estou prestes a cometer. Clarice, cega há um ano, devido ao acidente que sofreu com Paulo, seu atual marido, precisa do meu relato. Tenho medo, mas não vejo outra saída. Encontrei-a, alguns meses atrás, saindo de um restaurante japonês com a sua mãe, e tornei-me, novamente, sua grande amiga. Falou da sua eterna paixão pela cozinha italiana e japonesa. Para meu espanto, estava segura e feliz com seu novo amor. Ele se tornou mais carinhoso e mais apaixonado. O amor que recebo é tão grande e verdadeiro que, depois de cega, passei a enxergá-lo. Ele tem a forma mais-que-perfeita e a palavra esperada como guia. Diante da vida, ele é tudo. Quando calmo e sereno, me faz chorar de emoção, e quando chateado, faz uma cara tão feia que me dá vontade de rir. Todos os dias, sem susto, ele queima minhas inseguranças, me livra de futuras cicatrizes, me deixa leve a carne, em fogo, pronta para cheirar as cores, pra enxergar o que não pode ser visto, pronta para o amor, disse-me, certo dia, com lágrimas nos olhos.
Observo, agora, sua vulnerabilidade e uma espécie de coceira na alma, que não consigo descrever bem, me impulsiona a falar:

- Eles chegaram. É uma bela mulher!

- Como ela é? Não me poupe dos detalhes, por favor! – implora com docilidade.

- Ela usa um vestido azul, justo, que revela um belo corpo e sandálias altas deixando-a na mesma altura que ele, que está de calça jeans e com uma camisa verde de mangas curtas...

- Eu dei essa camisa de presente a ele quando completamos dois anos de casados. É a minha cor preferida... – parou com a voz embargada. Respirou fundo e pediu - Continue.

- Ele a abraça com ternura e ela retribui o carinho cobrindo-o de beijos no rosto, até alcançar-lhe a boca. Quanta paixão eles exalam. Ela, agora, cochicha algo em seu ouvido arrancando-lhe um enorme sorriso. Isso me faz lembrar Carlos, de quando estamos em nossa intimidade e sussurro palavras picantes ao seu ouvido, ele fica louco de desejo...

- Pare! Não quero ouvir mais nada.

- Entendo.

Ela chora baixinho por alguns segundos. Abre a bolsa nervosamente, retira um elástico e prende os cabelos negros, que tanto realçam sua pele clara, num rabo de cavalo. Não resisto e começo a chorar, afinal, conheço bem essa dor. Quando ligo o carro para irmos, ela segura em meu ombro e implora:

- Vamos ficar mais um pouco. Continue, preciso recorrer às suas palavras, ao menos elas serão fiéis aos fatos e darão a medida exata da dor que devo sentir.

Continuo narrando sabendo que a natureza da minha ação não é bondosa. Desejo fugir, mas a minha vontade de ficar pesa e esmaga o meu medo. Uma vontade machucada, e por isso, inteligente, criativa. Agora, não é somente essa vontade que pesa, mas todo o meu corpo. Algumas pessoas dariam o nome de “maldade” a esse peso, mas na verdade é somente um meio de salvação. Olhando para o vazio, continuo inventando uma paixão rica em detalhes. Criando uma situação que não existe, me vingo, destruo o amor cego de Clarice.

Uma hora depois, paro o carro em frente à sua casa. Por um instante, tenho a vontade de lhe contar uma história bonita, de voltar atrás.

- Chegamos, amiga – digo com ternura.

- Não queria me separar de você. Não queria ficar só – fala com voz trêmula.

- Gostaria de ficar e te fazer companhia, mas infelizmente preciso ir. Carlos deve estar me esperando para o jantar. O que você pretende fazer?

- Ainda não sei. De qualquer forma, obrigada por tudo – fala entregando-se a um choro profundo.

- É para isso que servem as amigas, querida – Nos abraçamos por um bom tempo. Ela estava nitidamente abalada. Sabia que rumo sua mente tomaria de agora em diante. Se antes era capaz de acreditar no sofrimento das flores, agora pregaria a inexistência de Deus. Parti me sentindo suja, vil, pérfida. Mas a certeza que tenho, minutos depois, de que o amor é realmente cego, esmaga a minha violência, a minha injustiça.

Chego em casa antes das seis da tarde. Carlos ainda não chegou do trabalho. Vou direto ao guarda-roupa e retiro, debaixo de uma pilha de casacos, duas fotografias. Na primeira, Clarice e Carlos sentados na areia de uma praia que costumamos freqüentar. Ele está lindo, com um sorrido doce, encantador. Na outra, uma foto nossa, também sentados na mesma praia, onde ele sorri com amargura. Amargura, talvez, imperceptível para alguns, mas não para mim. Através dessas duas fotografias descobri o seu segredo. O seu olhar, a sua postura, o seu sorriso na primeira, revelam o real motivo de continuarmos freqüentando, sempre, a mesma praia, da sua paixão por comida italiana e japonesa e da cor verde nas paredes do nosso quarto. Choro, agora, diante da nossa fotografia. Pintei meus cabelos de negro e há muito não tomo sol. Talvez eu fosse mais feliz se fosse sozinha, não precisaria dar beleza ao que deveria desprezar. Escuto o barulho da porta se abrindo. Segundos depois, Carlos entra no quarto, me beija apaixonadamente e diz que sou a mulher da sua vida. Fala tão docemente que chego a ter total certeza do seu amor. Lembro de Clarice, e nesse momento ela não é mais inatingível, não é maior ou melhor que eu. Eu a atingi no peito e fui embora, deixando-a em sua casa e no meu passado, até chegar o momento de, novamente, encarar as fotografias.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Monstros


Cláudia Magalhães



Depois de quarenta anos sonhando acordada com um mundo que não fosse manipulado pelas emoções, onde não existissem sentimentos de horror, nem de piedade, esse monstro de riso abafado, grosseiro, preso na garganta por um bolor de futilidade, aprendi a enfrentar minhas emoções. Hoje, sou eu quem me persigo. Às vezes, tiro-as do comando, me enxergo, descubro a inteligência e colho flores; Em outras, deixo-me guiar até meu centro escuro, sem limite de espaço e de tempo, perco a chave, fujo de mim mesma, sangro. Ingerindo razão e emoção no mesmo prato, decido qual dos dois será o excremento. Não sei em qual desses opostos me ofereço amor, pensou observando o filho cair em sono profundo no seu colo, causado pelo efeito dos sedativos.
Sim, essa massa branca, disforme, que há quarenta anos rasteja pela casa soltando grunhidos, é o meu filho! Como eu o amo!, constatou com tristeza, acariciando o fruto de um amor que teve aos trinta e cinco anos e que desapareceu logo após o parto, deixando como única prova de sua existência os míseros depósitos feitos, todos os meses, em sua conta. Não sabia o real motivo daquele gesto, talvez ele estivesse envenenado de piedade, ou quem sabe, guiado pelo medo de se perder da estrada que acredita um dia levá-lo ao Paraíso. Desde então, ela passou a dedicar-se religiosamente a seu filho e a protegê-lo de um mundo de olhos amedrontados, de nojo, de conversas rasteiras e tolas, de orações sem fé perdidas ao vento. Bom dia, Senhora! Como vai o seu filho?, lembrou da pergunta da vizinha que encontrara, pela manhã, no mercado da esquina. Como Deus quer!, respondeu secamente. Todos os dias, eu oro por ele e por meu filho, que, agora, passou a andar com gente da pior espécie!... Cada um com a sua dor!, concluiu com um olhar de mártir. Mal sabe essa mãe o quanto eu gostaria de chamar meu filho de ladrão, de mentiroso, de homicida. De vê-lo chegar tarde da noite com cheiro de vida, sangue, lágrimas, suor, saliva, com sede de rua. De quantas vezes desejei amar novamente, mas não poderia suportar ver no ser amado, desejado, a expressão miserável de escarro, o vômito reprimido, uma compaixão monstruosa que só serviria para aumentar a vaidade de Deus, pensou com amargura. Lembrou, então, de todas as noites, durante quatro décadas, em que colocou aquela cabeça disforme em seu colo e lhe falou da existência de monstros, de todas as espécies e de todas as cores, que, até hoje, evitam a sua calçada com medo da casa, que para eles é mal-assombrada, pois nela mora um anjo. Essa noite, doente e cansada, ela começa a falar sem conter as lágrimas:
- Um lindo anjo, com pernas de fogo, que desceu a terra escorregando pelo arco-íris, sentado sobre uma nuvem e vestido de Sol. E quando observava o meu semblante triste e cansado, deitava a cabeça em meu colo e, sem mover os lábios, aliviava meu pranto, dizendo-me que por trás desse mundo de sombras, a esperança é preservada. Não é sem razão que o amo! Hoje, meu anjo, nós vamos para o mundo dos sonhos, onde habitam seres encantados, iguais a você! Eles possuem um coração puro, não conhecem orações e nem pedidos. Não se importam com as aparências, vivem do simples e podem rir até mesmo de seus pequenos hábitos. Brincam de se reunir em volta de uma grande fogueira, onde contam histórias que nos enriquecem a sabedoria. Trocam presentes que se chamam: Amor pelo próximo! Amor abnegado! Amor! Lá, ninguém precisa falar! Tamanha é a cumplicidade que proferir uma palavra seria um desperdício. Nesse mundo, teu espírito será livre, minha criança. Lá, não existe velhice, ninguém dá adeus, ninguém vai embora, e eternamente te chamarei de: meu filho!
Levanta com passos firmes, decididos, joga gasolina em seu corpo e em seu anjo adormecido. Espalha o líquido pelo chão do quarto e pela casa inteira. Volta até o quarto do filho, coloca novamente sua cabeça em seu colo, e pega, sobre o criado-mudo, o pedaço de papel com a oração de todas as noites, desta vez, com um cuidado demoníaco, pois chegara o dia da cobrança e não poderia esquecer nenhuma palavra. Risca o fósforo, joga-o sobre o tapete do quarto e começa a sua oração:
- Ave-Maria cheia de graça... Que graça é essa que se faz presente agora? O Senhor é convosco... Ele não enxerga o meu sofrimento? Ele não vê que a minha alma não encontra consolo porque não nos achamos na mesma condição! Bendita sois vós entre as mulheres... Mulheres? As mulheres da terra existem para o sofrimento e são entregues a dor sem piedade. Ao conceber o seu filho concebe também um amor que nenhum freio segura e a vida, no momento que lhe convém, o transforma em nosso maior inimigo, fazendo-nos pagar tão caro a maternidade! Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus!... Porque o meu já caiu na desgraça. Vejo aquele que gerei, que deveria ser testemunha da minha velhice e enterrar-me com suas próprias mãos, entrar e sair desse mundo como um verme! Será esse nosso castigo: Dormir sonhando com o céu e acordar no inferno? Santa Maria, mãe de Deus!... Eu quero a sua presença agora! Receba em teu reino o filho dessa tua miserável serva para que nada lhe falte. É o seu dever, pois és mãe e és Santa! Rogai por nós pecadores... Porque toda mãe ama seus filhos de alma para alma, com suas faltas, seus erros e seus sonhos inúteis! Que em teu seio, ele encontre morada; nas tuas palavras, a luz; no teu amor, o perdão de ter nascido torto! Peço-te agora a morte! A velhice já me destrói as carnes, a qualquer momento a vida poderia me cuspir e o meu anjo viveria nesse mundo como um cadáver. Estou pronta, e já aguardo o momento de reencontrar o amor perdido...
Nesse momento, o fogo estende-se na direção deles. Um fogo real, nobre, consome o corpo da velha mãe e do seu herói, que tantas vezes sonhou em chamar de ladrão, de mentiroso, de homicida. Agora, a terra gira devagar, cuspindo o amor nobre, que tanto procuramos e que, cansado, punido, foge da vida, buscando refúgio em nossos sonhos.