quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Amor Meu

Cláudia Magalhães


Não sei o que é melhor, dormir ou acordar com o homem amado, penso ao velar teu sono, com a certeza que o amor não é um final feliz, mas o desejo de tê-lo, é a tua carne dentro da minha alma depois do gozo e tudo o que ela me diz no silêncio do teu sono tentando fugir do perigo, é a calma e a delicadeza que experimento no momento em que me dizes que não sonhas e com as pálpebras cansadas despede-se dos odores do amor, do gosto do vinho, da música suave, murmurando com ternura que não sabes se é melhor dormir ou acordar comigo e reforçando o laço que nos une, oferece-me teu ombro, onde fico até que o corpo exija que me afaste, mas não sem antes colar meu pé direito em teu pé esquerdo - talvez desejando que sob o encanto desse instante, algum milagre se manifeste sob nossos dedos e me leve contigo dividindo os mais doces prazeres pelos astros e estrelas - e assim permanecer até saber que já voas alto, sim, não sonhas porque sabiamente depositas com grande zelo no portal do esquecimento as lembranças do dia, cria asas e voas como uma ave aventureira, audaciosa, que desobedece à ordem habitual do mundo, observando os tesouros e as mazelas deste como quem gera a si mesmo, enquanto nesse instante, observando teu corpo morno e nu, não resisto ao desejo de acariciar tuas costas livres, asas da minha mente, e sentindo uma ternura que afasta qualquer violência, uma espécie de força singular capaz de destruir um exército de ladrões que por algum motivo queiram te roubar a paz, beijo tua nuca, murmuro em teu ouvido que te amo com paixão e com loucura, em pensamento desejo que voes bem alto, pois continuarei atenta, distante dos seres das trevas com suas inteligências desesperadas - a posse, a hipocrisia, o egoísmo, o rancor - que esses vermes que cortam o ar com suas línguas afiadas fiquem para sempre esmagados sob a terra, longe do nosso amor e dos nossos filhos, pois quero-te livre e sorrindo (quando vi teu sorriso pela primeira vez, te amei!), penso velando teu sono até as exigências do corpo cansado me fazer adormecer com o coração acordado, e assim permanecer até o meu despertar com o teu abraço repleto de carinho e desejo, e com um simples movimento de quadris recebo tua carne dentro da minha, arrastando o fogo que nos escapa feito fumaça pelos poros, pelo olhar, pela saliva, pelos sexos inchados, por cada parte do meu corpo dizendo que somente tu, amor, me enrubesce, me emociona, que nosso amor não rima com dor, que antes dele surgir em minha vida eu era pedrinha miúda, pisada, carne sem alma, sem rumo, sem destino, as linhas das mãos tortas, embaralhadas, meus pés andavam em desalinho, sem destino, em busca do nada, dizendo como eu quero que o nosso amor seja eterno, sem prazo pra acabar, sem hora marcada, e, por ser o amor tudo o que entra e sai, te vejo com um sorriso e com os olhinhos brilhantes entrar e se renovar em meu peito, em minhas pernas, essa cerca que queima, que arde, até me levantar da terra - sim, amor meu, nessa hora me fazes voar - e, com metade do sangue em meu sexo, meu corpo treme e me dissolvo em água, fazendo nesse instante, à minha volta, não existir mais nada além do enorme desejo de ficar a teu lado por seis eternidades e meia, e assim, com esse amor que não é dobrável, te vejo sair para o mundo com a certeza de que, sem trapaças, sem roubo, como um sábio conforto, possas recorrer a ele para dividir um sorriso pelos quatro cantos da terra ou um choro do qual te aliviarei distraindo teu coração com poesias regadas a vinho, filmes perfumados com temperos irresistíveis, músicas que te transformam em astro, viagens que nos façam sonhar acordados, com um sorriso que em silêncio te diga o quanto sou grata pela oportunidade de estar novamente a teu lado e ao fim de mais um dia velar teu sono, tentando descobrir os mistérios que envolvem teu corpo nu, pois observando-te dormindo, tentando te proteger de qualquer inimigo, tornei-me bela diante do mundo, que admirado em me ver envolvida por tamanha ternura, todas as noites me desafiando com o mesmo enigma - se é melhor dormir ou acordar contigo - me fez descobrir exatamente os riscos que me acompanham e que assumo, e que por ti, homem amado, através do teu sono, aprendi a entrar para dentro de mim, a não ter medo do perigo, e que por tudo isso, desejo que durma em paz, querido, porque juntos dormimos com o amor.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Dorme Neném


Cláudia Magalhães


"Tutu-Marambá não venha mais cá, que a mãe da criança te manda matar, bicho-papão sai de cima do telhado, deixa a menina dormir sossegada...'', Ofélia acordou com a voz da criança cantando e sentiu um forte mal-estar, uma náusea que fazia seu estômago dar voltas e mais voltas. As pancadas da chuva na janela só aumentavam sua dor de cabeça. Com as pernas trêmulas seguiu em direção a porta de entrada e ao tocar no trinco pensou que ia desmaiar. Ela estava fechada, não havia como escapar. Segundos depois, andava de um lado para o outro da sala buscando o controle da situação, mas o mundo insistia em correr mais rápido. Foi até o outro quarto e encarou com espanto o rosto quadrado, esquálido da velha. "Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...", ouviu a voz da criança que cantava sem parar e sentiu o peito fervilhar como se estivesse dentro de um forno. Por que não nos deixa em paz? Por que nos manter presas aqui?, gritou encarando a velha. Sentiu uma forte dor no estômago. Há quanto tempo não comia algo? Não lembrava. Pobre criança, já não sabe mais sorrir!, pensou com tristeza.
Correu até a cozinha e encontrou uma garrafa de gim fechada. Que alívio, ela vai se sentir melhor!, pensou enquanto abria a bebida. Encheu o copo e, em seguida, voltou ao quarto com a garrafa e ofereceu a bebida a velha que tomou de um só gole. Não gosto de você, te odeio o suficiente para te matar. Por favor, desista! Não me olhe assim, com esse olhar caído, fraco, não terei pena de você! Não use seu sofrimento como pretexto para nos prender aqui! Vou revirar cada canto dessa casa e descobrir onde escondeu a chave. Vou pegar a criança, sair por aquela porta e encontrar meu amor. Sim, eu sei viver um grande amor, ao contrário de você! Por isso fica assim com essa inveja no peito e com esse desejo de morte, disse vendo a velha virar mais um copo de gim. Por que não se mata de uma vez? Não sabe que não pode manipular os desejos do mundo? Não são nossas vontades que fazem a faca cortar nossos pulsos, mas nossas fraquezas. São elas que dão poder às coisas. Então, vá em frente, velha! Pegue essa faca que você deixou sobre a cama, pois fraqueza é o que não lhe falta! Você não consegue, não é? Não minta pra si mesma, não esconda suas limitações. O nome disso é covardia!, disse encarando a velha que, nesse instante, tomava mais uma dose de gim. "Dorme neném que a cuca vem pegar, papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar...", a voz da criança a deixava em pânico. O que você fez com a menina? Vamos, diga! E as chaves, onde estão as chaves?, gritou histérica. Por que você faz isso? Por quê?, perguntou com um fiapo de voz. Você foi amada, descobriu o real sentido de levantar a saia e no lugar de se sentir feliz, se tornou inquieta e medrosa. Penetrou mais em você do que no amor que poderia ter te dado tudo e não gostando do que viu, se tornou sua maior inimiga. Perdeu e diante do abandono e da solidão só fez envelhecer, disse revirando tudo pelo quarto. Essa brincadeira toda me perturba. Vou encontrar essa chave e, ao contrário de você, uma fracassada, vou em busca da felicidade. Vou em busca do amor perdido. Vou dizer que ao seu lado dou as costas a tudo que faz tremer a felicidade, que sua companhia me rouba de uma vida miserável e que isso me deixa mais distante da morte. Direi que o amo e se minhas palavras não forem suficientes para trazê-lo de volta, não ficarei de braços cruzados como os covardes que tentam se matar com as mãos nuas, falarei com o olhar, com as mãos, com as coxas, com os pêlos, com o sexo faminto e de cada uma dessas partes que fazem esse amor doarei sua porção mais generosa, doce e erótica, até ele purgar todas as dores, tristezas e dúvidas e me levar ao gozo dos que amam deixando escapar da sua boca um "eu te amo"! Seremos causa e efeito, sob o comando da emoção no espaço e no tempo encontraremos a inteligência do amor e reduziremos a estupidez a pó. Vê a velha tomar mais um gole de gim e sente a cabeça girar. Amamos de maneira diferente. Não vou deixar você tirar ele de mim porque não suporta me ver feliz. "O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo ficou ferido e a rosa despetalada!", a voz da menina em sua cabeça a deixava cada vez mais desorientada e a amargura da velha já cobria por completo seu juízo. Sei que perdi, não precisa me lembrar disso. Eu vou gritar. Vou gritar até que apareça alguém para me salvar, disse correndo desesperada até a porta de entrada.
A chave está na porta!, constatou em pânico. Como não a vira antes? Deu altas risadas. Gargalhou muito, até a exaustão, até dobrar a esquina daquela emoção extrema e desabar num choro grave, sofrido. " O anel que tu me deste era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou!", era a voz da criança que escutava cada vez mais forte. Voltou ao quarto sentindo a alma pesada, capaz das piores atrocidades. Ficou mais uma vez em frente ao espelho e encarou os olhos da velha Ofélia dentro dela, observou sua inércia, seus lábios enrugados que jamais ousariam dizer o que sonhava, que nunca soube se enfeitar de sonhos, seus pés fincados no chão frio e decidiu se salvar daquele mal que a atormentava. Pediu ajuda a pobre criança Ofélia, mas ela desaprendeu a sorrir, desaprendeu a brincar. Antes tão cheia de vida, agora, um pequeno raio de luz, muito fino e frágil, uma voz de saudade, doces lembranças pulando corda, caindo no poço, chupando manga nos quintais. A criança, a velha e a mulher, três forças desordenadas que formavam a Ofélia. Três em uma. Quantas faces cabem em nossa alma? Qual delas irá cuspir na vida enterrando os desejos das outras sete palmos debaixo do chão? Não importa. A velha venceu. Há momentos em que devemos proibir a compaixão pois ela torna santo o que devemos desprezar. "A canoa virou, por deixá-la virar, foi por culpa de Ofélia que não soube remar." Nenhuma palavra mais foi dita. Entre ela e a realidade, somente o silêncio e a distância. Ali, diante do espelho, com a certeza de que todas as promessas e desejos da infância se perpetuam, Ofélia deu adeus a si mesma. Sem rodeios, cortou os pulsos, matando a mulher, a velha e a criança Ofélia de trinta e cinco anos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sete e Um


Cláudia Magalhães

Vivemos num mundo onde almas se procuram e quando se encontram morre parte do nosso céu ou inferno. Nessa oração, a vida nos aprisiona com o que nos resta dessas curas até o encontro fatal, derradeiro, que, independente de ser predestinado ou apenas uma questão de sorte, nos prova que estamos sempre em busca da morte. E foi num duelo com esta que conheci o riso e o choro, mas aprendi a não debochar.

O amor nunca me pegará! Esse pensamento me acompanhava desde a mais tenra idade. Na verdade, não queria conhecê-lo, pois sempre tive medo dos heróis, eles não são perfeitos e suas falhas me aniquilariam. Tamanho era o meu medo de encontrá-los ou reconhecê-los que passava grande parte do meu tempo dentro de mim. Em minhas tocas, em minhas esquinas, virei a morte dos humanos, a que vive onde a vida escarra. Seguia diante da vida impondo meus desejos de sangue e minha sede de saliva, mudando a realidade, moldando-a de tal forma que ela atendesse a todos os meus desejos. Eu, algoz e vítima, a todo instante me perseguia e, com medo do amor, acelerava o tempo levantando minha saia de solidão e revelando minhas vergonhas. Precisava enrubescer para me sentir viva.

Aos vinte e dois anos quando meu primeiro namorado, com um buquê de flores, pediu-me em casamento, meia hora depois desejei ardentemente que ele tivesse um infarto fulminante na hora do jantar. O segundo, quando eu tinha vinte e cinco anos, pediu-me em casamento e me entregou um jogo de panelas, imaginei ele, que tinha Hipsifobia, medo de altura, seguindo até a varanda do meu apartamento e se atirando do sétimo andar. Aos trinta anos, desejei que o meu terceiro candidato a marido perdesse a consciência durante sua caminhada matinal, enquanto eu manuseava com tédio o presente que acabara de ganhar, um álbum de fotografias. Aos trinta e três imaginei meu quarto pretendente, depois do pedido, morrendo com uma dor torácica ao tentar levantar o meu presente que estava sobre o meu tapete, uma televisão. Aos trinta e seis, enquanto eu estampava minha cara de tédio ao abrir meu presente, uma caixa com três perfumes doces, imaginei o quinto, que sofria de síndrome do QT longo, indo dessa para uma melhor, sofrendo um gatilho emocional ao conferir que acertara todos os números do bilhete da loteria que esquecera de apostar. Aos trinta e seis, imaginei o sexto, que sofria de Wolff-Parkinson-White, uma doença que atinge em média quatro a cada cem mil pessoas, morrendo por excesso de exercícios na bicicleta que me trouxera de presente e aos trinta e nove anos senti uma enorme felicidade imaginando meu sétimo pretendente morrendo com uma parada cardíaca depois de me presentear com um livro de auto-ajuda e não teria desfibrilador portátil, ressucitação cardiopulmonar e nenhum medicamento que o salvasse. Embora as situações fossem outras, as vítimas e o que tem dentro delas também, na hora do pedido de casamento sentia uma espécie de assombração por todos e assustada sempre dizia: Não! Ao desejar suas mortes não tinha o menor rasgo de sofrimento, pelo contrário, um enorme alívio me consumia.

O oitavo pretendente, depois de tomar uma garrafa de vinho, na mesma noite em que nos conhecemos, me pediu em casamento e, sem nenhum presente em mãos, aproximou-se com gestos rápidos e tirou minha roupa. Senti um tremor na alma que a cada olhar dele se emocionava e tentando recusar essa emoção perdi a lucidez. Lembro que em pensamento o chamei de irritante, vadio, louco, mas um turbilhão de sentimentos me invadiu, o que não ousaria resumir em uma única palavra. Entrei na mais perigosa fuga. Ali, num assalto do tempo ou num acordo cúmplice com a morte, o amor me alcançou. Feito flores "bocas-de-lobo" em meio a espinhos encheu-me de um carinho violento e passei a me sentir em perigo. Ele despertou a beleza e a ternura que me inquietava, penetrou minha carne seguindo o terço das emoções, rezou sobre meu sexo sem pressa, elevando sua temperatura tal qual um vulcão prestes a entrar em erupção e com seu líquido quente eletrizou meu corpo até as pontas dos meus cabelos, as raízes do meu tempo, de uma maneira tal que, naquele instante, eles pararam de crescer. Em seguida, levou-me até o inferno sem tirar-me do altar. Depois das horas de amor, o vi perdendo os sentidos. Em desespero, toquei em sua carne fria, em suas mãos roxas, em seu rosto distante dos sorrisos que exaltaram e iluminaram a noite. Diante da sua morte, pude ver o mundo faminto desde sua criação devorar-me, enquanto pessoas vestidas iguais me ofereciam flores sob murmúrios que exprimem grande devoção a dor ou total ausência desta, cheios de horror diante do infeliz destino da assassina, da desgraçada, da besta-fera, da que seria infeliz no amor até o momento da terra cuspir em sua cara. Com a dor fazendo ondas em meu peito, pensando em sua ausência, em sua carne apodrecendo, entrei em desespero! Foi preciso vê-lo frágil, fraco, ver a vida cuspí-lo para descobrir que ele pertencia à minha vida. Minutos depois, o perfume da paixão me subiu às narinas e me trouxe à realidade. Com grande alívio, observei seu rosto cheio de cor e o seu sorriso que antecipava as horas de prazer, as quedas livres do gozo e tudo o que até hoje me exprime ternura. O seu amor me torna invisível aos olhos da morte, ele disse feliz, como se lesse os meus pensamentos. Há dez anos ele repete essa frase e, nus, continuamos roubando os sonhos do mundo, nada mais justo quando se quer viver um grande amor.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Luz e Sombra


Cláudia Magalhães

Seja bem-vindo! Estava em companhia da solidão com meus devaneios e delírios, mas sua presença trouxe grande conforto ao meu coração e tenho absoluta certeza que nosso convívio será bem agradável. Deixe o espírito livre. Leia com os olhos da alma. Livre-se de tudo o que causa novas formas de aprisionamento. Há ou não algum juízo no amor? Não fuja! Vamos, responda! Eles estão aqui em suas realidades de luz e sombra e interrogam cada um de nós.

Ela não dorme desde que nasceu. Ele, todas as noites, tem pesadelos. Quando acordados, são estátuas que sonham voando. Foram gerados num lugar qualquer, e como todo lugar no mundo, habitado por anjos e demônios. Estes, criados do excremento, andam nus, e por serem desprovidos de alma não sentem culpa, nem remorso. São superficiais, fúteis, carregam dentro de si o oco do mundo. Os primeiros, por lhes faltarem a carne, são dissimulados, hipócritas, gozam para dentro, sufocam-se com o próprio gozo para camuflarem suas fraquezas. Nenhum deles é a criatura perfeita que empresta graça e divertimento necessários ao jogo da vida. Falta-lhes o amor, que nesse caso nos provaria o equilíbrio de tudo o que há sobre a terra. Por isso, vez ou outra, um anjo nasce revestido da carne e um demônio descobre dentro de si uma alma. Foi o que aconteceu com nossos protagonistas, os primeiros a experimentarem esse sentimento feito de luz e sombra.

Eles se conheceram numa noite onde ninguém poderia roubar as vontades de uma lua grávida de desejos, nem esfriar os girassóis que buscam o céu. As estrelas, ansiosas para testemunharem o nascer do amor, trocavam incansavelmente de lugar, alimentando, até hoje, os sonhos dos que buscam a saliva que já tem a cor, o cheiro e a medida exata para fazerem ateus acreditarem no divino e que tornam mais escorregadios os dias. Eles se procuraram, se encontraram e se descobriram perdidos num sentimento, até então, sublime. Beijaram-se. Sentiram frio. Sentiram calor. E tudo sobre a terra parecia ter um fim, menos o sentimento que, naquele instante, fazia seus corações flechados doerem e, perdendo o fôlego, gemeram, sem entenderem ao certo o que queriam dizer. Com as carnes escancaradas, lambuzaram-ze, estouraram-se, fartaram-se de vida e tudo era suor, gemidos e paz do início dos tempos. Eram almas disparadas por todos os lados. Seus olhos carnívoros comiam o que de um subia ao céu e o que do outro caía sobre a terra. Exalavam amor pelos olhos, pelas mãos, pelos sexos inchados, descarados, vivos, e no vai e vem do amor, quando um saía do outro, tudo era fogo do inferno, assavam demônios e quando, novamente, se encaixavam, tudo era dilúvio, afogavam anjos e viravam pérolas no fundo do mar. Fartos no gozo deram risadas, sem perceberem que a carne quando ama torna-se transparente. Tudo no outro era tão urgente que ignoravam os anjos e demônios que habitam a terra e que, até hoje, morrem em vida por falta de amor, do perigo que estes representam e que uma imagem perfeita, sublime, despertam nestes os mais obscuros desejos.

Certo dia, enquanto ele observava maravilhado sua amada em sono profundo (depois que se conheceram ela passou a dormir e ele começou a sonhar. Coisas do amor...), aproximou-se dele a alma falsa de um anjo.

Anjo: O que você sente por essa mulher? - pergunta com voz doce, suave.
Ele: Amor...
Anjo: Ela, o que sente por você? - insiste.
Ele: Ela me ama.
Anjo: Tem certeza disso?
Ele: Eu sinto...
Anjo: Você é um anjo, ela é um demônio... Ela já foi por você contrariada?
Ele: Por que faria isso?
Anjo: Experimente dominá-la... Não permita que ela fique por cima na hora do gozo, só assim você poderá ter a certeza do seu amor.

E o anjo se despediu deixando nele um tormento e, com este, um enorme poder de imaginação. Ela despertou com o peso do corpo amado sobre o seu. Gostou. Amou. Sentiu seu corpo repleto de prazer molhar a terra. Depois de se deixar dominar por um tempo, tentou inverter as posições, mas ele a impediu com firmeza.

Ela: Por que quer me manter sob a tua sombra? - pergunta com doçura.
Ele: Você é uma mulher, portanto deve estar sob mim, suportar o peso do meu corpo.
Ela: Entendo que somos terra e vontades. Fomos criados do mesmo barro, por isso somos iguais. Vamos inverter nossas posições. Assim, seremos iguais em corpo e em alma - diz tentando, novamente, inverter as posições, mas ele a impede.
Ele: Sou um anjo e você, um demônio. Minha carne foi criada do pó puro e a tua, do excremento. Portanto você é submetida a mim.
Ela: Maldito! Mil vezes, maldito!, grita sentindo-se ferida, humilhada.

Terminada a discussão, desfaz-se o casal. Ela descobriu nele a vaidade de um anjo e ele encontrou nela o orgulho de um demônio. A dor contida endureceu seus corações deixando somente um enorme vazio, uma angustiante sensação de fracasso. O mesmo coração que amava, que tinha para o outro todas as atenções, todos os cuidados, criou, naquele momento, um jogo de ofensas que multiplicava as sombras da terra e o mundo perdeu a cor. Com essa competição transformaram-se em sanguessugas. Ela foi amar com os demônios, ele com os anjos. Colocaram-se nas mais humilhantes situações. Engoliam gozos que não lhes permitiam cantar depois, que lhes secavam a garganta e lhes abandonavam da própria imagem. Queimaram as flores, afogaram os desejos, ficaram fartos de solidão. Mas o ódio era apenas uma espécie de verniz sobre um amor sufocado que insistia em ficar e a vida já cansava seus corações. Passaram a procurar um pelo outro. Ele entrou no inferno, ela no Paraíso. Correndo na mesma velocidade, saíam de um para o outro, numa busca infinda, pois enquanto um olhava para o céu o outro mergulhava em águas profundas. Cansados daquela busca, recusaram-se a viver naquele mundo preto e branco, de outra forma que não fosse ao lado de quem lhes apresentou a poesia, a música e o lirismo. Saltaram da vida e viraram lenda. Depois de um curto momento de escuridão, encontraram-se parados, nus, flutuando no céu. Nunca mais seriam bonecos de barro, e sim, o Sol e a Lua. Mas o tempo do amor não perdoa as fraquezas. Eles não poderiam se tocar, nunca mais... Ele é o dia, ela é a noite. Ela voltou a não dormir e ele, todas as noites, a ter pesadelos. Descobriram, tarde demais, que não há beleza em ter defeitos, a única saída é sonhar que eles podem ser amados na dor, somente sonhar, pois há sempre uma luz para cada sujeira e tudo passa a ser verdade. Agora, somos do amor uma lenda. Os poucos anjos com carne e demônios com alma serão pequenos diante de nós, o amor será tão raro quanto um eclipse e todos aqueles que tentarem nos matar, morrerão, ela falou com tristeza.

Por isso, caro amigo, tenho os pés na lama, mas o olhar voltado para o céu. Quero os naufrágios e o fogo do inferno e não ser, simplesmente, um anjo ou um demônio. Não quero oferecer minhas misérias na correnteza da vida, nem guardar do amor somente gozos e suspiros. Mas, apesar de querer enfeitar minha vida e virar lenda, de querer o perigo para obter o descanso, pergunto-lhe, novamente: Há ou não algum juízo no amor?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amor em Paris


Cláudia Magalhães


Clara está no tempo dos amores mal curados, onde o gozo é controlado por um anjo ou demônio, e este ou aquele, deitado a seu lado, com a mão esquerda torna febril e trêmula a sua fenda e com a direita injeta em sua mente doces recordações do passado, paralisando-a por completo.
É meia-noite. Há horas, ela permanece imóvel em sua cama, lugar onde dormiu por seis anos com um amor que, por ingratidão e egoísmo, há uma semana não está mais ali. Algo difícil demais para se compreender e que torna loucos os que andam pela terra.
Ela leva a sua mão em forma de concha até o sexo, pois é assim que rezamos para o amor, e sonhando com os míseros segundos em que tocaria as estrelas, tenta acariciar sua lua úmida até ela tornar-se, novamente, seca, fazendo girar mais rápido o mundo, mas as lembranças do passado estrangulam seus dedos, enchendo-os de verrugas e vergonha.
A enorme vontade de tê-lo, de possuí-lo, a faz perder o juízo. Vou a Paris. Vou em busca de Vinícius!, pensa. Segundos depois, ela enfrenta descalça as ruas desertas e o frio da madrugada, usando apenas seu vestido longo, florido que, por vezes, usava como camisola. Seus gritos entram pelas frestas das portas e das janelas quebrando o silêncio que comanda a decência. Quando um ou outro a pergunta, O que aconteceu, mulher?, ela responde, Vou a paris. Vou em busca de Vinícius!, e segue andando pelas ruas do outro lado do mundo como se fosse a dona delas. Pergunta a todos os que cruzam seu caminho por um homem alto, barbudo e grisalho e diante do silêncio ela responde, Ele está em Paris! Ele está me esperando em Paris! E segue falando da importância das mãos, pois nelas moram as vontades mais urgentes, falando da imensidão do mundo e do desejo que tinha com o homem amado de morar na Cidade dos Sonhos, para novamente, falar das mãos e do desejo, repetindo, incansavelmente, as mesmas palavras. Tenta, por vezes, se calar e escutar as histórias sem pé nem cabeça dos homens, mas ela tem pressa em se livrar dos sofrimentos da vida e segue sem escolher o caminho e sem saber ao certo quem ela é, molhando os pés na lama acreditando que é o mar, vivendo de esmolas, bebendo cachaça ou conhaque, pedindo a benção a Deus que segurando-lhe o juízo não precisa fingir que lhe deu, até adormecer nos bancos das praças ou nas portas das igrejas e sonhar voando.
Uma hora depois que ela partiu, Vinícius, arrependido de mais uma vez tê-la abandonado, entra no apartamento. Vou pedir perdão e milhões vezes milhões de vezes direi que a amo e nunca mais a farei chorar!, pensa, procurando-a com o peito sufocado pela saudade, mas é tarde demais.
Ele a encontra no quarto com a alma liberta. Ora caminhando como uma rainha, ora curvando-se e implorando coisas ao vento. Minha carne foi criada do pó impuro. Meu cérebro, uma grande duna, com a memória e os desejos dos ventos, encheu com o mel do mundo e com os ferrões das abelhas o meu sangue, que de tanto morrer, gerou em meu peito um enorme coágulo chamado coração. Uso salto, quero meus pés com gosto de rua na direção dos abismos. Há muito tempo, o amor me ensinou a cair, agora quero aprender a voar, diz olhando para ele, mas nada vê. A sua carne está acorrentada pelas vontades de sua alma, que cansada de sofrer liberta-se de si mesma, vai a todas as partes do mundo e confunde-se com outras. Desatenta e livre, muda de vontade de uma hora para outra, se reinventa a todo instante. Suas pernas encontram becos escuros, lama, sargaço, o mar e a imensidão das águas, enquanto sua cabeça de lua abraça o cruzeiro do sul, a Ursa maior, as três marias, e não somente elas, mas toda a constelação. Múltipla, infinda, ela é a dama, a mendiga, a poeta, a vítima, a algoz, a que ri e chora ao mesmo tempo. Ela é Clara, a sua Clara! Ele observa a mulher que ama, que partiu sem volta para a cidade dos sonhos, deixando em seu peito uma chuva que nunca vai parar e os seus olhos enchem-se de lágrimas.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A queda dos Anjos

Cláudia Magalhães


Morrerei, pontualmente, às dezoito horas. Hora da queda dos anjos quebrando suas máscaras, fazendo uivarem os lobos da terra. A minha alma branca, mistura das cores e manchas do meu passado, partirá vendo o Sol, com seu hálito quente, levantar a saia da Lua e entregar-lhe os desejos da saliva do dia, fazendo-a parir estrelas.
Não! Não faço uso do deboche, nem perdi o juízo, aceito minha loucura e por isso considero-me são. Vivo de saudade e de milagres e afirmo que, pontualmente, às dezoito horas, soltarei a vida e descobrirei caminhos ocultos. Na companhia de uma bebida qualquer, papel e caneta, escreverei a última palavra do meu último verso, e nesse instante, Ela chegará com o seu amor hipnótico, me beijará apaixonadamente até que eu perca os sentidos. O meu corpo em riso libertará minha alma com tamanho desprendimento que faria chorar a mais terrível das criaturas. Em seguida, a seguirei devagar, sem nenhum alarde, pois assim fazem os que sabem morrer.
Ah, Morte amiga! Amiga eterna! Razão da nossa infância, mocidade e velhice. Testemunha única e silenciosa de todos os nossos atos, sem perdão ou punição. O que eu era antes da tua existência? Loucura minha... Tudo nasce e morre, menos você, única certeza, presente ou ausente. Desde que você levou o meu amor, há seis meses, aguardo a sua chegada feito um morto-vivo. Quantas milhares de alegrias eu tinha e em todas ela estava presente! Vem, afasta-me dos cansaços da vida e deixa-me beijar aquela que amo e que, agora, veste-se de asas e desejos que fogem da terra. Leva-me docemente ao seu encontro, deixa-me dançar em seus braços e, juntos, amar a tua simplicidade sobre uma estrela qualquer. Faremos amor sem os limites da carne, somente o comando das nossas vontades em febre sob o teu perfume de flores. Se bater em nossos corações alguma tristeza, não há de ser nada, é a dor da ausência indo embora. Deixa-nos chorar por alguns instantes, vista-nos de sonhos e depois por ser você a solidão, essa enorme vontade de ir, nos esqueça. Seremos, então, inspiração para os poetas, bêbados e loucos, únicos que sabem amar com dignidade. Ah, espera! Doce e amarga espera! Adeus!

Ele abandona a caneta sobre o papel, transpira muito. Com o coração explodindo na garganta observa, finalmente, o relógio da parede marcar, pontualmente, dezoito horas. A ansiedade em sua alma é tão grande que lhe causa dor física. Abre a gaveta do velho birô de madeira e, segundos depois, ouve-se o barulho do tiro.
O fim tão desejado não veio de lugar algum. A queda violenta fez nuvens pesadas e cinzentas esconderem as estrelas, trazendo a chuva que, nesse momento, para muitos, não é bem-vinda. Estava derrotado por completo. Nenhum canto de amor, nenhuma posse ou território marcado, somente uma eterna agonia solta pelo espaço e que, a todo instante, pousa na terra que apaga as pegadas e guarda a verdade da carne, o pó, e a verdade dos homens, o tudo e o nada, provando que mesmo sem a sua existência ela continua a girar.

domingo, 15 de novembro de 2009

Meio Fio

Cláudia Magalhães



Há dias que possuem vida própria e são dotados de uma consciência má, hábil, que adora o perigo das coisas subterrâneas, de tudo o que nos causa espanto, nos fazendo em poucos segundos beber a beleza e vomitar os desejos de uma vida inteira. Em mais um desses dias, sentado no meio fio, ele mergulha a mente na idéia de felicidade, aproveita a distância da mulher amada, toma por vezes o seu lugar, moldando-a de tal forma que ela atenda a todos os seus desejos e, em menos de uma hora, mesmo ausente, ele jura ser capaz de apalpá-la.
O barulho de algumas pessoas se aproximando o faz voltar a realidade e ela escapa dos seus pensamentos. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras que experimentara pela primeira vez na noite anterior junto àqueles mendigos. Ela lhe permitiria ir até o outro lado do mundo. Lá, vestido com elegância, encontraria o seu amor em algum sonho, a cobriria de flores e depois ficaria em silêncio até acalmar o espírito. Pega a garrafa de cachaça e toma um gole. Aquela seria a última garrafa, depois voltaria pra casa. As pessoas que passam o olham com desprezo. Idiotas! Imbecis! O que eles sabem sobre o amor?, pensa vendo o Sol se aproximar da sua cama de papelão improvisada no canto da parede. Há quanto tempo estaria naquela rodoviária? Seriam dias, meses ou anos? Perdera a noção do tempo. Estava exausto, não pregara o olho a noite inteira e a dor de cabeça que sentia lhe queimava o juízo. Vê o primeiro ônibus da manhã chegando. Hoje eu volto pra casa. Essa é a última garrafa. Vou voltar e passar um ano sem beber!, pensa tomando mais um gole da bebida.
Levanta e vai em direção ao banheiro. Observa, por alguns segundos, a sua imagem no espelho quebrado. Uma imagem tão distante do homem bem-sucedido de algum tempo atrás. Vê o rosto oleoso, a barba cheia e o olhar triste. Sente uma enorme vontade de se esconder, uma forte angústia no peito. Lava o rosto, as mãos, joga água nos cabelos longos e sujos e se penteia com os dedos. Toma o último gole da garrafa e a joga no lixo. Pronto. Aquela foi a última, agora voltaria pra casa. Sai do banheiro catando no bolso algumas moedas que mendigara na noite anterior e compra um pastel de carne. Sente a massa entalada na garganta. Força-se a comer, precisa aliviar a dor no estômago. A cada minuto a sua angústia aumenta. Sente-se depressivo, torturado. Preciso beber algo, pensa catando algumas moedas no bolso. Compra mais uma garrafa de cachaça, prometendo a si mesmo que aquela seria a última, depois pegaria um ônibus e voltaria pra casa. Senta no meio fio e começa a beber. Sente-se eufórico, leve e, de certa forma, feliz. A angústia desaparece dando lugar a uma imaginação rara, sem alicerces no tempo, nem passado, nem presente, nem futuro. Uma imaginação de algum lugar sagrado dentro dele, que desconhece ou ignora o seu drama. O rosto da amada lhe aparece, evocando todas as palavras que lhe são caras: amor, perfume, prazer, paz, sonhos... Ele mergulha a cabeça num mar vermelho de desejos e ao sabor da bebida, ela faz amor com seus demônios e tem filhos. Centenas deles.
O Sol já se despede enquanto ele observa a garrafa vazia. Sente um medo terrível. Tudo o que não vem de dentro dele o assusta, é pequeno, sujo. Gosta da solidão da bebida, de viver o que não existe. Ele ama. Cata as últimas moedas do bolso. Tinha o valor exato da passagem do ônibus. Agora eu volto pra casa, pensou mais uma vez. É isso. Voltaria e começaria uma nova vida. Ela se foi e deve estar feliz com isso. Não iria sofrer por ela. Vadia e fútil, com certeza já estaria seduzida por uma beleza nova. O mundo é tão grande... Mas o seu coração recusa a desprezar o que ama e se põe inquieto. Prepara dentro dele um buraco cheio de abandono, amargura e desilusão e misturado a esses monstros só pensa em lhe ferir. Ele chora. Chora porque procura aquela que perdeu, mas aquela que perdeu não o procura. Chora porque ela tem asas e ele, os pés na lama. Precisa de uma bebida. Ela o ajudará a sentir melhor. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras...
Pega o dinheiro no bolso e compra mais uma garrafa. Senta no meio fio e toma um gole. Esta é a última, depois eu volto pra casa, pensa vendo os seis mendigos se aproximando ao longe. Seis, seu número da sorte. Ao menos passou a ser depois que a conheceu, constatou sorrindo, sentindo a angústia, novamente, ir embora.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As Fotografias

Cláudia Magalhães



O mal-estar que sinto antecipa o erro que estou prestes a cometer. Clarice, cega há um ano, devido ao acidente que sofreu com Paulo, seu atual marido, precisa do meu relato. Tenho medo, mas não vejo outra saída. Encontrei-a, alguns meses atrás, saindo de um restaurante japonês com a sua mãe, e tornei-me, novamente, sua grande amiga. Falou da sua eterna paixão pela cozinha italiana e japonesa. Para meu espanto, estava segura e feliz com seu novo amor. Ele se tornou mais carinhoso e mais apaixonado. O amor que recebo é tão grande e verdadeiro que, depois de cega, passei a enxergá-lo. Ele tem a forma mais-que-perfeita e a palavra esperada como guia. Diante da vida, ele é tudo. Quando calmo e sereno, me faz chorar de emoção, e quando chateado, faz uma cara tão feia que me dá vontade de rir. Todos os dias, sem susto, ele queima minhas inseguranças, me livra de futuras cicatrizes, me deixa leve a carne, em fogo, pronta para cheirar as cores, pra enxergar o que não pode ser visto, pronta para o amor, disse-me, certo dia, com lágrimas nos olhos.
Observo, agora, sua vulnerabilidade e uma espécie de coceira na alma, que não consigo descrever bem, me impulsiona a falar:

- Eles chegaram. É uma bela mulher!

- Como ela é? Não me poupe dos detalhes, por favor! – implora com docilidade.

- Ela usa um vestido azul, justo, que revela um belo corpo e sandálias altas deixando-a na mesma altura que ele, que está de calça jeans e com uma camisa verde de mangas curtas...

- Eu dei essa camisa de presente a ele quando completamos dois anos de casados. É a minha cor preferida... – parou com a voz embargada. Respirou fundo e pediu - Continue.

- Ele a abraça com ternura e ela retribui o carinho cobrindo-o de beijos no rosto, até alcançar-lhe a boca. Quanta paixão eles exalam. Ela, agora, cochicha algo em seu ouvido arrancando-lhe um enorme sorriso. Isso me faz lembrar Carlos, de quando estamos em nossa intimidade e sussurro palavras picantes ao seu ouvido, ele fica louco de desejo...

- Pare! Não quero ouvir mais nada.

- Entendo.

Ela chora baixinho por alguns segundos. Abre a bolsa nervosamente, retira um elástico e prende os cabelos negros, que tanto realçam sua pele clara, num rabo de cavalo. Não resisto e começo a chorar, afinal, conheço bem essa dor. Quando ligo o carro para irmos, ela segura em meu ombro e implora:

- Vamos ficar mais um pouco. Continue, preciso recorrer às suas palavras, ao menos elas serão fiéis aos fatos e darão a medida exata da dor que devo sentir.

Continuo narrando sabendo que a natureza da minha ação não é bondosa. Desejo fugir, mas a minha vontade de ficar pesa e esmaga o meu medo. Uma vontade machucada, e por isso, inteligente, criativa. Agora, não é somente essa vontade que pesa, mas todo o meu corpo. Algumas pessoas dariam o nome de “maldade” a esse peso, mas na verdade é somente um meio de salvação. Olhando para o vazio, continuo inventando uma paixão rica em detalhes. Criando uma situação que não existe, me vingo, destruo o amor cego de Clarice.

Uma hora depois, paro o carro em frente à sua casa. Por um instante, tenho a vontade de lhe contar uma história bonita, de voltar atrás.

- Chegamos, amiga – digo com ternura.

- Não queria me separar de você. Não queria ficar só – fala com voz trêmula.

- Gostaria de ficar e te fazer companhia, mas infelizmente preciso ir. Carlos deve estar me esperando para o jantar. O que você pretende fazer?

- Ainda não sei. De qualquer forma, obrigada por tudo – fala entregando-se a um choro profundo.

- É para isso que servem as amigas, querida – Nos abraçamos por um bom tempo. Ela estava nitidamente abalada. Sabia que rumo sua mente tomaria de agora em diante. Se antes era capaz de acreditar no sofrimento das flores, agora pregaria a inexistência de Deus. Parti me sentindo suja, vil, pérfida. Mas a certeza que tenho, minutos depois, de que o amor é realmente cego, esmaga a minha violência, a minha injustiça.

Chego em casa antes das seis da tarde. Carlos ainda não chegou do trabalho. Vou direto ao guarda-roupa e retiro, debaixo de uma pilha de casacos, duas fotografias. Na primeira, Clarice e Carlos sentados na areia de uma praia que costumamos freqüentar. Ele está lindo, com um sorrido doce, encantador. Na outra, uma foto nossa, também sentados na mesma praia, onde ele sorri com amargura. Amargura, talvez, imperceptível para alguns, mas não para mim. Através dessas duas fotografias descobri o seu segredo. O seu olhar, a sua postura, o seu sorriso na primeira, revelam o real motivo de continuarmos freqüentando, sempre, a mesma praia, da sua paixão por comida italiana e japonesa e da cor verde nas paredes do nosso quarto. Choro, agora, diante da nossa fotografia. Pintei meus cabelos de negro e há muito não tomo sol. Talvez eu fosse mais feliz se fosse sozinha, não precisaria dar beleza ao que deveria desprezar. Escuto o barulho da porta se abrindo. Segundos depois, Carlos entra no quarto, me beija apaixonadamente e diz que sou a mulher da sua vida. Fala tão docemente que chego a ter total certeza do seu amor. Lembro de Clarice, e nesse momento ela não é mais inatingível, não é maior ou melhor que eu. Eu a atingi no peito e fui embora, deixando-a em sua casa e no meu passado, até chegar o momento de, novamente, encarar as fotografias.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Monstros


Cláudia Magalhães



Depois de quarenta anos sonhando acordada com um mundo que não fosse manipulado pelas emoções, onde não existissem sentimentos de horror, nem de piedade, esse monstro de riso abafado, grosseiro, preso na garganta por um bolor de futilidade, aprendi a enfrentar minhas emoções. Hoje, sou eu quem me persigo. Às vezes, tiro-as do comando, me enxergo, descubro a inteligência e colho flores; Em outras, deixo-me guiar até meu centro escuro, sem limite de espaço e de tempo, perco a chave, fujo de mim mesma, sangro. Ingerindo razão e emoção no mesmo prato, decido qual dos dois será o excremento. Não sei em qual desses opostos me ofereço amor, pensou observando o filho cair em sono profundo no seu colo, causado pelo efeito dos sedativos.
Sim, essa massa branca, disforme, que há quarenta anos rasteja pela casa soltando grunhidos, é o meu filho! Como eu o amo!, constatou com tristeza, acariciando o fruto de um amor que teve aos trinta e cinco anos e que desapareceu logo após o parto, deixando como única prova de sua existência os míseros depósitos feitos, todos os meses, em sua conta. Não sabia o real motivo daquele gesto, talvez ele estivesse envenenado de piedade, ou quem sabe, guiado pelo medo de se perder da estrada que acredita um dia levá-lo ao Paraíso. Desde então, ela passou a dedicar-se religiosamente a seu filho e a protegê-lo de um mundo de olhos amedrontados, de nojo, de conversas rasteiras e tolas, de orações sem fé perdidas ao vento. Bom dia, Senhora! Como vai o seu filho?, lembrou da pergunta da vizinha que encontrara, pela manhã, no mercado da esquina. Como Deus quer!, respondeu secamente. Todos os dias, eu oro por ele e por meu filho, que, agora, passou a andar com gente da pior espécie!... Cada um com a sua dor!, concluiu com um olhar de mártir. Mal sabe essa mãe o quanto eu gostaria de chamar meu filho de ladrão, de mentiroso, de homicida. De vê-lo chegar tarde da noite com cheiro de vida, sangue, lágrimas, suor, saliva, com sede de rua. De quantas vezes desejei amar novamente, mas não poderia suportar ver no ser amado, desejado, a expressão miserável de escarro, o vômito reprimido, uma compaixão monstruosa que só serviria para aumentar a vaidade de Deus, pensou com amargura. Lembrou, então, de todas as noites, durante quatro décadas, em que colocou aquela cabeça disforme em seu colo e lhe falou da existência de monstros, de todas as espécies e de todas as cores, que, até hoje, evitam a sua calçada com medo da casa, que para eles é mal-assombrada, pois nela mora um anjo. Essa noite, doente e cansada, ela começa a falar sem conter as lágrimas:
- Um lindo anjo, com pernas de fogo, que desceu a terra escorregando pelo arco-íris, sentado sobre uma nuvem e vestido de Sol. E quando observava o meu semblante triste e cansado, deitava a cabeça em meu colo e, sem mover os lábios, aliviava meu pranto, dizendo-me que por trás desse mundo de sombras, a esperança é preservada. Não é sem razão que o amo! Hoje, meu anjo, nós vamos para o mundo dos sonhos, onde habitam seres encantados, iguais a você! Eles possuem um coração puro, não conhecem orações e nem pedidos. Não se importam com as aparências, vivem do simples e podem rir até mesmo de seus pequenos hábitos. Brincam de se reunir em volta de uma grande fogueira, onde contam histórias que nos enriquecem a sabedoria. Trocam presentes que se chamam: Amor pelo próximo! Amor abnegado! Amor! Lá, ninguém precisa falar! Tamanha é a cumplicidade que proferir uma palavra seria um desperdício. Nesse mundo, teu espírito será livre, minha criança. Lá, não existe velhice, ninguém dá adeus, ninguém vai embora, e eternamente te chamarei de: meu filho!
Levanta com passos firmes, decididos, joga gasolina em seu corpo e em seu anjo adormecido. Espalha o líquido pelo chão do quarto e pela casa inteira. Volta até o quarto do filho, coloca novamente sua cabeça em seu colo, e pega, sobre o criado-mudo, o pedaço de papel com a oração de todas as noites, desta vez, com um cuidado demoníaco, pois chegara o dia da cobrança e não poderia esquecer nenhuma palavra. Risca o fósforo, joga-o sobre o tapete do quarto e começa a sua oração:
- Ave-Maria cheia de graça... Que graça é essa que se faz presente agora? O Senhor é convosco... Ele não enxerga o meu sofrimento? Ele não vê que a minha alma não encontra consolo porque não nos achamos na mesma condição! Bendita sois vós entre as mulheres... Mulheres? As mulheres da terra existem para o sofrimento e são entregues a dor sem piedade. Ao conceber o seu filho concebe também um amor que nenhum freio segura e a vida, no momento que lhe convém, o transforma em nosso maior inimigo, fazendo-nos pagar tão caro a maternidade! Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus!... Porque o meu já caiu na desgraça. Vejo aquele que gerei, que deveria ser testemunha da minha velhice e enterrar-me com suas próprias mãos, entrar e sair desse mundo como um verme! Será esse nosso castigo: Dormir sonhando com o céu e acordar no inferno? Santa Maria, mãe de Deus!... Eu quero a sua presença agora! Receba em teu reino o filho dessa tua miserável serva para que nada lhe falte. É o seu dever, pois és mãe e és Santa! Rogai por nós pecadores... Porque toda mãe ama seus filhos de alma para alma, com suas faltas, seus erros e seus sonhos inúteis! Que em teu seio, ele encontre morada; nas tuas palavras, a luz; no teu amor, o perdão de ter nascido torto! Peço-te agora a morte! A velhice já me destrói as carnes, a qualquer momento a vida poderia me cuspir e o meu anjo viveria nesse mundo como um cadáver. Estou pronta, e já aguardo o momento de reencontrar o amor perdido...
Nesse momento, o fogo estende-se na direção deles. Um fogo real, nobre, consome o corpo da velha mãe e do seu herói, que tantas vezes sonhou em chamar de ladrão, de mentiroso, de homicida. Agora, a terra gira devagar, cuspindo o amor nobre, que tanto procuramos e que, cansado, punido, foge da vida, buscando refúgio em nossos sonhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Lua Negra


Cláudia Magalhães



É através da vontade, de uma grande vontade, que um amor se prende a outro, o resto é solidão, erro que cola à alma dos que não cedem, não insistem ou simplesmente não o aceitam em sua essência, penso eu. Como me chamo? Ora, que importa meu nome? Iguais a ele existem milhares de outros no mundo, e o que difere as mulheres uma das outras são as intensidades de suas vontades, metade delas na cabeça, a outra metade em suas luas que renovam o mundo quando levantam as saias.
É certo que essa renovação depende, por um lado, da qualidade do ventre, um ventre imundo só pode gerar criaturas imundas, e por mais que a alma seja limpa, perfumada, o simples contato de um com o outro acaba por contaminá-la. Por outro lado, temos a participação do sêmen que, movido pelo acaso, pode doar sua melhor ou pior parte. É dessa forma que construímos o mundo, sim, nós, posto que deus é puro demais para isso.
Nesse mundo, nasci. Em uma rua qualquer, numa cidade qualquer. Informações que não posso revelar, pelo simples fato que, algumas horas após meu nascimento, ainda cheirando a sangue, fui posta enrolada num lençol sujo, fétido, presumo, na porta de Carmem e Manoel, um casal distinto, donos de uma pensão.
Seja por bondade divina, seja por desejar algum lugar no paraíso ou por mera curiosidade humana, ou seja ainda por pura piedade desprovida de qualquer interesse (Se é que isso, realmente, existe!), os donos da pensão me adotaram como filha, a partir daí, passamos a sentir um amor grande demais para não matar, roubar ou trair.
Tímida, cresci indo da escola para casa durante a semana, e de casa para a igreja aos domingos, onde conheci o meu marido, Paulo, primeiro e único namorado, ambos com dezessete anos, no ano em que concluíamos o segundo grau e que nos preparávamos para o vestibular. Infelizmente, minha mãe veio a falecer nesse período, o que me fez adiar a faculdade para cuidar do meu pai, já com setenta e dois anos, e da pensão. Nesse mesmo ano, me casei e, no ano seguinte, realizei o maior sonho dele, ter um neto. Nunca morri de amores por Paulo. Éramos na verdade mais amigos que amantes, além disso, éramos bem parecidos, extremamente tímidos. Na verdade achava a minha vida monótona e sem graça.

Cuidava da pensão sozinha, desde as refeições servidas até a troca de uma lâmpada, posto que Paulo tem aversão a qualquer tarefa doméstica. A pensão é pequena. Um primeiro andar cor de abóbora, recuada, sem muro, com um pequeno jardim na entrada. No térreo, temos uma espaçosa varanda, onde geralmente me deito para ler enquanto meu filho brinca, uma sala de tv, a cozinha, dois banheiros e um enorme quintal. No andar superior temos seis quartos, um do meu pai, outro meu e de Paulo, e o restante são ocupados geralmente por estudantes universitários.

No quarto ano de casamento, enquanto meu filho tirava um cochilo depois do almoço, e eu descansava na rede da varanda lendo Bel-Ami, de Maupassant, Clara apareceu. Era uma estudante de jornalismo e procurava um lugar mais barato e próximo da faculdade. Extremamente comunicativa, não necessariamente bonita, mas tinha certo charme. Alta, cabelos castanhos, curtos e um sorriso cheio, encantador. Acertamos sua estadia e conversamos por horas sobre a minha grande paixão, os livros. À noite, apresentei-a a Paulo, que chegava do trabalho. Ele trocou meia dúzia de palavras e subiu para o quarto. Continuamos nossa conversa literária durante o jantar. Estava extremamente feliz, tínhamos tantas afinidades e ela era uma excelente companhia. Passei a esperar, com ansiedade, a hora dela voltar da universidade para as nossas longas e intermináveis conversas. Observei que, todos os dias, ela e Paulo chegavam juntos por volta das dezenove horas. Paulo trabalhava numa loja de informática perto da faculdade e, coincidentemente, eles pegavam o mesmo ônibus. Chegavam sempre sorrindo, animados. Na segunda semana, isso passou a me incomodar, o que fez com que eu passasse a evitá-la. Clara passou a ser uma obsessão. Passei a ter insônias terríveis imaginando um possível romance entre os dois e todas as noites, antes de dormir, eu perguntava as mesmas coisas:

- Clara lhe atrai, não é mesmo?
- Porra, eu já pedi que parasse com essas perguntas idiotas!
- Está gostando dela, não é?
- Claro que não! Quantas vezes eu vou ter que repetir isso!
- Você fica todo alegrinho quando ela está por perto.
- Você é louca!
- Eu sei de tudo...
- Tudo o quê?
- Você sonha com ela todas as noites...
- Eu vou embora daqui. Estou falando sério!
- Tanto faz...

Ele achava ridículo o meu ciúme, o que me causava grande revolta. Senti algo estranho, um deserto no peito. Passei a não suportar as luzes e a andar pela pensão feito um réptil, grudando nas paredes, me arrastando pelos cantos, pisando mole no chão, para poder vigiá-la. Ela não saía do meu pensamento...
Certa manhã, encontrei a porta do seu quarto entreaberta. Entrei e a vi adormecida sobre a cama. Senti uma vontade enorme de destruí-la. Não sabia de onde vinha tanto ódio, não ainda... Observei, pendurado por um fio de nylon grosso na parede mofada da cama, um enorme espelho. Peguei uma vassoura que estava próxima a porta e com o cabo empurrei com cuidado o fio até a pontinha do prego enferrujado e saí com o coração aos saltos em direção à cozinha. Coloquei uma xícara de café e fiquei esperando. E se ele não cair? Bem, só me resta esperar... Nesse momento, escutei uma pancada seca seguida de um grito fino, estridente. Maldita! Eu sou uma grande Maldita!, pensei correndo em direção ao quarto dela. Ela estava em pé, de costas, aparentemente sem nenhum arranhão. Sem que ela me visse, voltei para meu quarto e encontrei Paulo sentado na cama.

- Que barulho foi esse? – perguntou ainda sonolento
- O espelho do quarto de Clara caiu – falei andando, sem parar, de um lado para o outro
- Essas paredes estão podres, a qualquer momento essa pensão desaba.
- Infelizmente ela não morreu!
- Você me dá medo...
- Então morra logo de uma vez ao escutar essa: Eu armei para o espelho cair! Entrei no quarto dela, hoje cedo, e enquanto ela dormia, com um cabo de vassoura puxei o fio de nylon até a pontinha do prego, mas o maldito espelho só resolveu cair quando ela já não estava mais na cama!
- Chega! Não agüento mais, vou embora desse inferno!

Arrumou, rapidamente, a mala e, sem dizer uma palavra, saiu. Fui em direção ao quarto dela, e a encontrei, sentada de costas, observando pela janela Paulo partir.

- Ele foi embora, está feliz por isso?
- Você sabe o que é frustração? – perguntou num fiapo de voz
- O quê? – perguntei sem entender qual era sua real intenção
- Frustração é querer, realmente, algo e covardemente deixá-lo pra trás

Apesar da penumbra vi que ela chorava. Senti um medo insuportável quando descobri, naquele instante, que todos os sentimentos que passaram pelo meu coração eu sabia diagnosticar, exceto o que passei a sentir naquele momento. Sem saber ao certo o que fazer, nem dizer, fui até a janela e fiquei observando o céu coberto de nuvens, e não menos nublado estava o meu olhar. Ela continuou baixinho:

- O amor foi criado por algum louco, de alguma parte de seu corpo, menos dos olhos, pois nada vê e por isso não privilegia os que enxergam. Talvez tenha sido criado da cabeça, pois seus atos são estranhos e incoerentes; para os que tentam compreendê-lo, queima-lhes o juízo; para os que tentam contradizê-lo, cava-lhes um buraco no peito, pintando seus dias de cinza; para os que tentam fugir, corta-lhes as pernas, fazendo dos que querem correr, rastejar. Somos parecidas, sonhamos com manhãs abençoadas por luas... e para os covardes essa lua é negra...

Um misto de medo e vergonha me invadiu quando senti suas mãos puxando levemente meus cabelos pra trás e com delicadeza serem trançados. A cada movimento delas, sentia nossas mentes se enlaçando como uma espécie de ritual maligno e irresistível. Não sei ao certo se perdia ou ganhava sensatez, quando minha mente, no lugar do recuo, resolveu ultrapassar a linha tênue que separa o amor do ódio, e este, quanto mais próximo do amor, mais terrível se torna e mais escorregadio, pois é feito de lama. Desabei no choro, sentindo minha alma viva, e nela restando, do meu passado, somente a estranheza dos sentimentos vazios. Vai amanhecer e o sol vai aparecer em forma de lua... , pensei prevendo o futuro. Segurei seu punho, sentindo seu coração pulsar fortemente, e sem poder suportar mais, entre soluços, desabafei: Eu te amo, Clara! Eu te amo...
Há dois anos estamos juntas e esse amor me realiza. Às vezes, ele se transforma num ódio passageiro causando grande confusão em meu coração. Qual a diferença do amor e o ódio, mesmo? Não importa! O importante é que, hoje, ele é apenas um pretexto para que eu possa dizer Eu te amo, e me fazer sentir viva, extremamente viva.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Senhor dos Destinos


Cláudia Magalhães



Quarta-feira, 18 de março de 2009

Caro Sr. Fulano,

Possuo uma crueldade excepcional que, quando adormecida, cede lugar a uma ternura intrigante, curiosa, que me entorpece, me alivia. Sou escravo dessas duas realidades. Elas me fazem nascer e renascer, todos os dias, e me tornam humano. Sempre que atravesso a delicada e invisível fronteira que as separam, sou tomado por uma espécie de estupidez execrável que, com o passar dos anos, me fez perceber que o espaço que separa a vida da morte é feito de silêncio, do simples quebrar de um salto, de uma brevidade não medida pelo tempo. Somos movidos por uma bomba-relógio chamada coração, cujo controle não nos pertence. Deixei de sentir revolta, aprendi a não brigar com o que desconheço, perdi o sentido do pecado.

Acredito basicamente em três coisas: na inexistência de Deus, na existência da maldade e na magia da Literatura. Ah... A Literatura! Ela coloca fantasia na sola dos meus pés, arranca minha língua, educa meus ouvidos e quando dou por mim, sou mais um personagem dos Deuses de minha vida. Identifico-me bastante com Édipo, todos os dias, quando acordo, furo meus olhos para não enxergar a podridão do mundo.

O que falar da Literatura que provoca? Que destrói o belo e se masturba quando apresenta as baixezas do homem? Engana-se quem acredita que ela não espera por resposta. Todo bom livro delira de gratidão quando nos arranca uma lágrima, de alegria ou de dor, que usa, sabiamente, para afogar suas traças.

Nada há de extraordinário em minha vida. Rejeitado pelos meus pais, ainda adolescente, eu roubava para sobreviver. Amante da solidão, usava o dinheiro para pagar o quartinho fétido da pensão, comprar comida e livros nos sebos da cidade. Antes de dormir, sentava com alguma bebida barata e escrevia sobre o meu dia, hábito que mantenho até hoje. Escrever é minha única forma de perder a sanidade quando não estou vendo um bom filme ou lendo um bom livro. Não conseguindo viver na “normalidade”, escondo-me em qualquer lugar dentro das infinitas possibilidades das palavras, em seus altares devassos, em seus inferninhos divinos, onde o ponteiro do relógio move-se na velocidade e na direção dos meus pensamentos, onde a única lei é a de perder o juízo. Sem escrever, enxergaria minha existência da mesma forma que meus olhos, desprovidos de um espelho, enxergariam minhas costas.

Aos vinte e dois anos, cometi meu primeiro crime. A boa quantia em dinheiro apagou, rapidamente, qualquer possibilidade de remorso, afinal, aquele pobre homem poderia, ao atravessar uma avenida, tropeçar em alguma pedra solta e ser fatalmente atropelado. Quem pode prever o futuro nessa bola que gira manipulada pelo desconhecido? Desde então, passei a viver, sempre, de malas prontas. Não permaneço mais que uma semana na mesma cidade. Motivo pelo qual dou de presente meus livros assim que os termino de ler, mas sempre com a dedicatória: Cuide bem deste livro, ele salvará sua vida!

Hoje, o senhor me fez viver um fato curioso, mágico. Quero que atire nas duas partes podres do corpo daquela filha da puta: na buceta e no coração! Foram suas últimas palavras no início da noite. Depois de anotar o endereço, seu rosto, antes nervoso, estampou uma sensação de solidão absurda. Seria essa a face do amor contrariado? Por que sofrer por um simples abandono? Desgraça maior é morar num apartamento luxuoso sem estantes, sem livros! Bem, isso, agora, não importa. Saí da sua cobertura elegante, parei num boteco de esquina, em frente ao fatídico hotel e pedi um conhaque. Quanto mais aproximava a hora marcada, mais aumentava minha excitação. Uma espécie de gozo contido queimava meu juízo e me fazia beber compulsivamente. Não tardou para que ela aparecesse na rua deserta, com um vestido solto, preto, que lhe ia até a altura dos joelhos. Aproximei dela com a fúria de um animal selvagem desprovido de alimento. Assustada com o barulho dos meus passos, ela virou abruptamente e protegeu o peito segurando com as duas mãos um livro: Diário de um Ladrão, de Jean Genet! Gelei até os ossos. Em minha mente, somente, as palavras daquele Deus, cujo túmulo não poderia depositar flores: Conservei-me atento para agarrar esses instantes que, errantes, me pareciam estar a procura, como de um corpo, uma alma penada, de uma consciência que os anote e os experimente. Quando a encontram, param: o poeta esgota o mundo. Essa lembrança eletrizou meus cabelos, escorreu pelas minhas costas, preencheu minha coluna e virei verso. A minha alma farta de poesia assumiu proporções indescritíveis. Vestindo de letras as minhas fraquezas e a minha maldade, tornei-me a mais bela das criaturas. Observando a minha cara assassina coberta de vergonha, ela correu assustada, em direção ao hotel. Se prosseguisse com meu plano, desmoronaria. Não poderia matar alguém com um livro que me fez encontrar o vazio, a existência do mundo e a certeza de saber que não o possuo.

Coloco, agora, sob o seu cadáver essa carta para que outros a leiam quando o encontrarem em sua luxuosa cobertura "sem livros". Peço-lhe perdão, embora não sinta o menor arrependimento, afinal, você poderia tentar, novamente, matar o que temos de mais belo e raro: bons leitores! Quanto ao senhor, quem se importa? O senhor poderia atravessar uma avenida, tropeçar em alguma pedra solta e ser fatalmente atropelado. O que me resta dizer? Desgraça maior é ser Lady Macbeth e ser coroada com a loucura, é ser Othelo e não poder viver em paz seu grande amor, é viver numa mansão sem livros, é saltar para o nada sem ter conhecido o lirismo de Genet!



Ass.:Um amigo.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A Noiva


Cláudia Magalhães


Saltou da cama, temendo chegar atrasada. Era o dia do seu casamento! Ah, esse dia jamais será esquecido! A felicidade, assim como a tristeza, tem cheiro de fruta doce, pensou inspirando o suave odor do ar. Correu até o velho baú e retirou, com cuidado, seu velho vestido de noiva. Vestiu-se com dificuldade. O seu corpo agitava-se num vai e vem frenético. Estava, sempre, num balanço, tentando entrar em harmonia com o tempo. E nesse balanço, atingia vôos cada vez mais distantes. A porta do quarto foi aberta por um rapaz de rosto duro e frio, como todos naquele lugar. Não se importaria com ele, estava feliz demais para isso. Poderia, finalmente, reencontrar seu grande amor!
Em busca do seu coração, seguiu em direção ao pátio. Por que quanto mais queremos chegar a um determinado lugar, mais ele se torna longe?, pensou ao atravessar o longo e frio corredor. As pessoas, que por lá circulavam, não notaram sua chegada. Nenhuma alma. Nem grande, nem pequena. De nada adiantava expirar, com seu deslumbrante vestido branco, tanta felicidade. As pessoas não gostam do sucesso alheio. A felicidade, sempre, incomoda, pensou sentindo toda sua alegria pesar o ar.
Correu em direção ao que chamava de “pequeno jardim”. Nesse lugar, todos os dias, na mesma hora, o esperava sentada num banco, branco, de ferro, que ficava sob uma enorme mangueira. A vida é uma enorme repetição, pensou observando uma manga rosa, tão doce quanto seu coração, pendurada na frondosa árvore. Era a fruta mais bela que já vira. Precisava pegá-la, ela seria seu buquê e quando terminasse a cerimônia, a ofertaria ao homem amado. Ela representaria seu amor! Teria presente mais doce? Não, definitivamente, não! Ah, como o amava! Esse amor tomou conta do seu corpo e tornou-se seu universo. Não entendia o real motivo de ter sido abandonada por ele naquele lugar frio e autoritário, dependendo da bondade, indiferente, daquelas pessoas que entendiam, somente, de bulas de remédio. É certo que estivera completamente no escuro por algum tempo e que andara com as mãos no lugar dos pés, mas, agora, estava “recuperada”. Lutaria pelo homem amado. Subiria na árvore, mesmo que se machucasse. Seus arranhões seriam como uma carta de amor. Era necessário mutilar-se com algumas farpas para provar a grandeza do seu sentimento. Toda carta de amor deveria ser escrita na carne, com sangue, dessa forma, todas as promessas de amor virariam cicatrizes, acompanhariam todos nossos passos e jamais seriam esquecidas com o tempo, pensou ao subir na árvore. Alcançou a manga e colocou-a, com cuidado, no banco. Limpou o vestido. Arrumou os cabelos, jogando-os para o alto e, dando-lhes um nó, improvisou um rabo de cavalo. Estaria impecável quando ele chegasse. Depois de alguns segundos de silêncio, retomaria o fôlego e lhe daria um longo e caloroso beijo. Diria que o amava com loucura e sairiam, de mãos dadas, daquele inferno. Escreveriam uma linda história de amor no tempo e mostrariam as pessoas que o amor necessita de perdão. Pensou em como seria bom tê-lo de volta. Preparar com carinho suas comidinhas preferidas, fazer amor e adormecer em seus braços com a certeza da existência de coisas que nunca se acabam e que nos voltam mais fortes quando a esperamos com paciência e determinação. Limpou, novamente, o vestido. Desmanchou o rabo de cavalo e o refez com agilidade. Nunca estava bom o suficiente. O amor, também, é assim. Nunca é bom o suficiente. Por essa razão fora abandonada. Essa sua mania imbecil de querer tudo no seu devido lugar, de arrumar, incansavelmente, a louça, a casa, era uma prova do seu amor. Ao ter a certeza disso, ele a abandonou. Ele passou a odiá-la pelo simples fato dela o amar. Pegou a manga e observou-a com atenção. Nunca vira uma manga tão bela! Cheirou-a e, novamente, colocou-a sobre o banco. Tinha absoluta certeza de que, em algum momento, ela a faria sofrer. Todas as coisas boas nos fazem sofrer. Elas moram na esquina do amor com o ódio, concluiu com tristeza. Limpou o vestido, refez o rabo de cavalo, pegou a manga, cheirou-a e pensou com uma estranha surpresa: Nunca vi uma manga tão bela! Por duas horas, repetiu esse ritual, incansavelmente. Quando ele chegar, direi que o amo com loucura até a exaustão. Repetirei inúmeras vezes. A vida é uma grande repetição e usarei isso a meu favor, repetindo, somente, as coisas boas, concluiu com satisfação refazendo o penteado.
Faltavam poucos minutos para o pôr-do-sol, quando escutou o som de passos firmes. Eram eles. Malditos! Sanguessugas do inferno!, pensou sentindo um medo quase insuportável. Nesse instante, o céu fechou as pernas arrastando nuvens pesadas e cinzentas, e escondeu o seu azul mais profundo. Tudo ficou plano, reto, uniforme. Não havia estrelas, nem firmamento. Sumiram as cores e do arco-íris, somente o nada. Estava tudo acabado. Fechou os olhos e deixou-se molhar pela água que derramava em seu peito. Sem o seu amor, tudo seria somente chuva. Uma chuva que traria seu passado em relâmpagos, queimaria suas lembranças, reduziria tudo a cinzas, fazendo seu futuro fugir pela boca feito fumaça. Cantou em silêncio, vendo-o morrer arrastado pelo tempo. Olhou a manga e constatou que, em breve, ela seria apenas uma fruta podre ou, então, seria devorada por algum estranho. Soltou um terrível grito de dor. Não! Não deixaria ninguém meter as mãos no que tinha de mais doce. Aquela fruta era seu amor. Se alguém tinha que provar sua doçura, esse alguém seria ela! Devorou a manga e sentiu sua felicidade escorrer pelos dedos. Os dois homens observaram com uma estúpida frieza, por alguns segundos, aquela mulher de rosto inquieto, dando as costas à razão em nome do amor. Não entendiam que não existe nenhuma arma contra ele, somente uma defesa: a loucura. Essa fuga dos perigos da vida. É nesse repouso dentro de nós, que ela nos desmonta e nos torna vítima e algoz.
Deixou-se agarrar por eles. Não se moveu, nem falou nada. Tudo poderia ser usado contra ela. Atravessaram o longo e frio corredor. Deitaram-na na cama, deram-lhe alguns comprimidos e saíram. Nenhum sorriso, nenhum carinho. Não chorou, já estava acostumada com a frieza dos homens sem coração. Enfrentaria a insignificância dos momentos em que teria que viver como se nunca tivesse experimentado um grande amor. Não tinha escolha. Tomaria todos os remédios, faria todas as refeições, como um animal domesticado. No início, quando chegou naquele maldito lugar, tentou se rebelar, mas, tal qual um amor contrariado, todas as suas tentativas de se fazer ouvir foram usadas contra ela. Esperaria a próxima oportunidade e fugiria dali. As pessoas enlouqueceram. Elas não sabem mais amar, constatou com a loucura dos que amam demais.
Ele não apareceu. Teria mais uma chance? Não sabia. Restava-lhe sonhar. Talvez, a forma mais humana, mais justa, de viver. Nos sonhos, encontraria o poder da loucura, do seu lirismo, indispensável para alcançar o amor. Somente os loucos amam. Em algum deles, o reencontraria num lugar chamado poesia. E, com uma flor na boca, ele lhe diria, somente, palavras de amor. Ela escutou o barulho de risadas debochadas, dos enfermeiros, vindas do corredor. O mundo ignorava sua tristeza. Adormeceu chorando baixinho, sentindo o gosto, agora, amargo, do que já lhe fora doce, extremamente doce.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Espelho, espelho meu!


Cláudia Magalhães

Estava nu diante do espelho. Olhou seus pés, as pernas finas, o tórax pouco definido, os braços compridos, as mãos grandes e magras, o rosto delicado, quase feminino. Gostou do que viu, exceto os pelos insuportáveis, que o deixavam nervoso, como se tivesse um grave defeito físico. Tinha dezoito anos e era virgem. Chamava-se Pedro, que significa pedra, contrastando com sua alma de cristal. Uma alma, com um brilho intenso, ofuscada pela imagem que sorria, falsamente, diante do espelho. Entrou no banheiro e depilou-se por inteiro. Lavou o corpo com água do chuveiro, e a alma, com água de chuva. Secou-se com cuidado e, sentado diante do espelho, que ficava ao lado dos porstes de Oscar Wilde e Arthur Rimbaud, seus ídolos, calçou as meias finas que estavam sobre a cama, cobrindo o sangue que teimava em lhe escorrer pelas pernas. É preciso ferir-se para continuar vivo, pensou observando os pequenos cortes sobre a pele. Roçou as pernas uma na outra. Nunca experimentara nenhum prazer maior que aquele. Colocou a sandália prateada, de salto finérrimo e, por último, o vestido vermelho de seda que lhe ia até a altura dos joelhos e deixava a mostra seus ombros delicados. Em seguida, seguindo a geografia da alma, pintou o rosto. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Pedro não mais existia. Pegou a bolsa e atravessou a sala com cuidado para não acordar sua mãe. Quando já estava próxima a porta de saída, escutou um leve ranger na madeira da escada. Sentiu o sangue gelar e, devagar, olhou para trás. A sua mãe a observava, na penumbra, imóvel. Abriu a porta, com pressa, e saiu para o deserto do mundo, com as pernas bambas, pisando no chão firme como quem pisa em areia fofa e quente. Com sede de vida, como um criminoso, um homicida.

Nunca conhecera o seu pai. A sua referência de família girava em torno da saia de sua mãe, Alma. Uma saia que cobria com sete anáguas uma lua cheia de desejo, com sede de Sol. O seu pai morrera de câncer quando ela estava grávida de sete meses, e com ele, a sua felicidade. Tornou-se uma mulher de poucas palavras, uma sombra da saudade. Dividia o seu trabalho entre a sua profissão de bibliotecária e os pincéis. Seus quadros, sempre, retratavam pessoas tristes, melancólicas. A sua forma de ver o mundo. O que minha mãe está pensando de mim nesse momento..., pensou ligando o som do carro. É certo que ela sabia que o filho tinha alma de mulher, mas, ela, nem ninguém, nunca o vira vestido como tal. Sempre o fazia trancado em seu quarto. Era filho único e o véu de noiva da sua mãe substituíra as bonecas que nunca tivera. Leve-me para sair hoje à noite, onde haja música e haja gente que seja jovem e viva..., a música de Morissey fez sua mente seguir viagem, suspensa na lua.

Chegou na Praça das Flores. Sentou numa das mesas e pediu uma cerveja. Sentiu os olhares curiosos, zombeteiros, que desconhecem o valor da vida, penetrar-lhe a carne e atingir-lhe o coração. Risos nervosos, gargalhadas debochadas soltas ao vento. Nesse momento, envelheceu dez anos. Cada segundo parecia horas. Sabia que precisaria enfrentar aquela situação, mas não resistiu. Com os cotovelos sobre a mesa, segurando a cabeça com as mãos, chorou desesperadamente, sem entender que aquela dor era, em parte, manipulada. Era o choro que alcançava o tamanho indefinido das poesias, das músicas, dos livros que povoavam sua cabeça cheia de sonhos adolescentes. Diferente de alguns que aconteceria ao longo da sua vida, mas não muito, já que todo choro arrasta uma série de lástimas, que sob o julgamento dos olhares externos, e por isso, afortunados, seriam, facilmente, lançados ao abismo. Sentiu saudade do seu quarto e dos inúmeros personagens imagináveis que o rondavam. Posso sentar?, perguntou um rapaz alto e magro, que surgiu a sua frente como um furacão, interrompendo os seus pensamentos. Acenou afirmativamente com a cabeça. Ele tinha os cabelos pretos, curtos e desalinhados, e enormes olhos castanhos com olheiras escuras que a encaravam destemidos. O seu coração saltou do peito, feito um animal selvagem, colando-se ao céu da boca, e o seu corpo ardeu em brasa, fazendo a tristeza evaporar-se por completo. Conversaram coisas incríveis. Era um paulista de vinte e dois anos, e estudava gastronomia. Estava em viagem de férias com os pais e aquela era sua última noite na cidade. Descobriram que gostavam das mesmas músicas, dos mesmos autores e eram apaixonados por cinema. Ele era uma pessoa excepcional e sua companhia a fez esquecer seu desprezo por grande parte da humanidade. Bem, já está amanhecendo... Eu preciso ir. Vamos viajar ao meio-dia e ainda precisamos nos despedir de alguns parentes. Além de descansar um pouco, é claro, ele falou com certa tristeza. Pediram a conta e seguiram em direção ao carro dela. Quer que te deixe em algum lugar?, perguntou na esperança que ele dissesse sim. Obrigado, estou de carro, agradeceu. Com um lindo sorriso, aproximou-se e, segurando-a pela cintura, beijou-a com paixão. Ela sentiu a vida começar naquele instante e feito criança explorou o mundo novo pela boca. Com a língua, livre no céu infindo da boca, mudando as estrelas de lugar, descobriu seus desejos mais secretos. Salivando mel, engoliu, naquele beijo, toda a doçura do mundo. Um encontro de alma para alma, tanto mata, quanto faz nascer!, pensou observando ele desaparecer, lentamente, sob o céu vermelho.

No caminho de casa, lembrou da imagem da sua mãe no alto da escada. Olhou para o relógio. Eram cinco horas da manhã. Ela, com certeza, estaria acordada. O que dizer?, pensou abrindo a porta da sala com cuidado. Silêncio. Foi até o quarto dela e, estranhamente, a encontrou adormecida com as mãos sujas de tinta. Melhor assim. Descansaria um pouco e enfrentaria esse problema com calma, sem hipocrisia, nem mentiras. Seguiu em direção a seu quarto e viu pendurado, no lugar do espelho, um quadro. Era seu retrato. Estava linda com o vestido vermelho. No lugar do rosto assustado, da noite anterior, um rosto sereno e feliz. Ao lado, um bilhete: Para minha linda menina, Cristal! Ass.: Alma. Ficou parada, imóvel, tomada por grande emoção. Lembrou com carinho da mãe, uma mulher silenciosa, sempre vestida de preto, com o seu eterno avental branco sujo de tinta, e um cheiro suave de manga doce invadiu o quarto. Cristal, que lindo nome!, pensou sorrindo feliz diante do quadro que, agora, refletia sua imagem como um espelho.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Em Pedaços

Cláudia Magalhães


A noite corria doce. As águas do rio lembravam calda de açúcar e as nuvens do céu, tufos de algodão. Ele esperava por seu amor na ponte dos desejos, sentindo-se um novo homem. Cantarolava a sua música preferida, com a felicidade no peito alcançando as notas da loucura, que em seguida, perdiam-se no vento, num vôo belo e insano. Sentia-se livre de todos os erros. Paria a si mesmo e fazia-se anjo. Milagres do amor...
Ela chegou na hora marcada. Era alta, branca, de cabelos pretos e olhos amarelos. Vestia um vestido de algodão com estampa de flores miúdas que lhe ia até os pés. Ele aproximou-se, segurou-lhe a cabeça com as duas mãos e beijou-lhe a testa, o que a fez levar a mão esquerda até os lábios, num gesto de timidez. Ele é tão gentil!, Pensou entregando-lhe a mão. Venha, vamos caminhar um pouco, ele pediu com doçura. Com trinta e poucos anos, sentiu-se uma adolescente. Nunca foi feliz no amor, embora tivesse tido vários relacionamentos. Todos terminaram de forma pacífica, sem grandes traumas, exceto o último, o grande amor da sua vida, mas que a abandonara com violência, deixando-a em pedaços que agiam como se fossem independentes, correndo, se humilhando por uma migalha daquele amor, destruindo a sua essência, reduzindo-a a carne e ossos. Agora, um ano depois, estava ali. Talvez, estivesse sendo muito ousada em se entregar a um estranho daquela forma, afinal, só trocaram algumas poucas palavras quando ele ligou para o seu número por engano. Que importa? Ainda estou doente e nenhuma dor pode ser maior que a minha, pensou tentando afastar a tristeza.
Caminhavam conversando amenidades quando começou a chover fortemente. Ele segurou firme a mão dela, atravessaram o pátio de um parque abandonado e seguiram até uma pequena casinha. Venha, aqui estaremos protegidos da chuva, disse abrindo uma porta velha de madeira. A casinha resumia-se a uma salinha, com uma pequena mesa de madeira e um imenso espelho na parede de entrada, e a um pequeno banheiro.
- Não conhecia esse lugar... - cometou sentindo muito frio.
- Faz, mais ou menos, um ano que esse parque está abandonado. – Falou tirando o enorme casaco e colocando-o sobre a mesa. Aproximou-se dela e olhou-a profundamente por alguns segundos.
- Você quer fazer sexo comigo? – ela perguntou num impulso.
- Eu quero te amar... - respondeu cheio de desejo.
- Sexo sem amor... - baixou os olhos e sorriu com amargura.
- Eu quero a mesma coisa que você. Pode ter certeza, o amor está incluído nisso...
Ele beijou-lhe os dois olhos e a boca. Ele é apenas um estranho, ela pensou tentando controlar o desejo que aumentava violentamente. Fechou os olhos, e através daqueles carinhos, tentou materializar a saudade do amor perdido. Sentiu a temperatura de seu sexo subir rapidamente, acumulando calor, tal qual uma panela de pressão prestes a explodir, a devorar-lhe as carnes com a sua água de fogo, e queimar-lhe os ossos até restar-lhe somente o pó. Ainda com os olhos fechados, ela tirou a roupa revelando as suas carnes brancas. Vem, amor! Nossos corpos foram feitos um para o outro. Vem, logo! Que esse amor está me matando!, Pensou deitando no chão frio, abrindo levemente as pernas. Era-lhe tão grande o desejo que sentiu uma enorme vontade de chorar. Como você é bela!, Ele disse, pensando na imensidão do amor escondido por trás daquela porta, daquela flor em carne. Sentiu o perfume doce do amor invadir a pequena sala. Caiu de joelhos e abocanhou-lhe o sexo. Precisava preparar-lhe o caminho, desenrolando o tapete liquido, sorvendo cada gota daquela água santa para dentro do seu corpo, benzendo-o. No início, com cuidado e carinho, enchendo o ambiente de gemidos baixos, doces, até tornar-se um ato desesperado, cheio de ansiedade. Pare, está doendo!, Ela gritou, causando, nele, grande alteração no espírito. Mordeu-lhe o sexo com força, Ele não poderia escapar, não daquela vez. Ela soltou um grito animal quebrando o silêncio da noite. Em desespero, estendeu o braço direito, pegou um dos seus sapatos e com o salto fino desferiu-lhe vários golpes na cabeça, até conseguir desvencilhar-se e correr para o lado oposto daquele pequeno inferno.
- Louco! Você é um louco!
- Eu amo você! - Disse olhando-a intensamente.
- Eu quero ir embora!
- Não torne as coisas mais difíceis pra mim. Diga que me ama...
- Eu não posso amar você, nos conhecemos há poucas horas.
- Por favor, diga que me ama...
- Eu não amo você! – gritou com desespero.
Nesse momento, ele teve a absoluta certeza. O que ele procurava não estava naquele coração. Tirou uma faca do casaco e enfiou no peito dela. Ela caiu trêmula no chão. Observou-a com cuidado. Ela já não estava mais ali. O esconderijo do amor estava, finalmente, arrebentado. Começou, então, a sua busca, partindo-o, deformando-o. Aonde você está? Na cabeça, nos fazendo perder o juízo, a razão? Na boca, que guarda o céu e cospe obscenidades? Nas mãos, atado em suas linhas tortas? No sexo, que chora no amor e na masturbação? Nos pés, que correm com sede de lama?, Procurou desesperadamente até a exaustão, até entender que ele se escondera num lugar que ele não teria acesso. Ele fugiu da vida. Com a dor, escorregadio e sem forma, entrou no sono dela, e se escondeu em seus sonhos..., pensou, com tristeza. O amor havia surgido em sua vida para, novamente, horas depois, deixar somente carne, sangue e vísceras.
Observou, pela janela, a noite se recolhendo para dormir. Precisava agir antes que amanhecesse. Colocou toda aquela sujeira num saco. Olhou-se no espelho, estava com uma aparência horrível, sujo de sangue e suor. Tomou um banho demorado e vestiu a mesma roupa. Pegou o casaco que ficara sobre a mesa, tomando o cuidado de abotoá-lo por completo, dos joelhos até o pescoço, a fim de esconder as manchas de sangue. Com a mente em branco e com o seu amor em pedaços, retornou a ponte dos desejos e, guiado pelo instinto, jogou o saco no rio. Era a terceira vez, naquele ano, que saía com o Sol, cheio de desejos e sonhos e voltava na madrugada, oco, vazio. Não podia se queixar de solidão. Misturado aos seus inúmeros e bons amigos, logo, logo, estaria recuperado. Seja um bom menino!, Lembrou com carinho das últimas palavras da sua querida mãe antes de sair de casa. Precisava comprar pão fresquinho e preparar-lhe o café. Dormiria, pelo menos, uma hora, em seu colo, antes de ir para o trabalho.
As águas do rio, agora, refletiam o céu em vermelho, destruindo a vaidade de Deus. Tentou cantar. Não conseguiu, a sua língua estava presa no céu , com gosto de sangue. Então, chorou. Os seus olhos deram a sua boca o gosto amargo da vida, o sal que mantém sobre a terra somente a carne e os ossos, mas que é inimigo do amor, que ele tanto amava, mais que qualquer outra pessoa. Agora, precisava dormir. Com a luz do Sol, talvez o encontrasse novamente, então cantaria a sua canção preferida, sonhando com um final feliz.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A Primeira Mulher de Deus

Cláudia Magalhães


Nas primeiras horas do anoitecer de uma sexta-feira, depois de desejar fortemente fugir daquele maldito lugar, a primeira mulher de Deus sentiu nascer do centro das suas costas, um enorme par de asas negras. Descobriu, então, que a liberdade nasce no centro escuro de todas as coisas, onde moram os desejos mais secretos, nas tocas, nos cárceres, nos lugares fechados, onde a saída não é visível ao olhar humano.
Amava Deus com todas as suas forças. Ele, na sua infinita bondade, dera-lhe a vida, e sentia-lhe uma enorme gratidão por isso. Ensinara-lhe tudo. Falou-lhe da existência do diabo, seu maior inimigo, e do seu enorme poder de sedução. Disse-lhe que ele habitava nas terras além do abismo e, que deixar-se seduzir por ele, só lhe traria grande dor, grande tormento. Inexplicavelmente, a partir desse momento, desejou fortemente conhecê-lo. Condenada a viver isolada naquele lugar chamado Paraíso, pensava, dia e noite, numa maneira de atravessar o abismo e fugir da solidão.
Certa noite, deixou-se cair sobre a terra úmida e ficou contemplando o céu vestido de estrelas. Leve-me com você!, Pensou ao observar uma delas cair. Nesse momento, sentiu o seu corpo elevar-se do chão. Um enorme par de asas negras, úmidas de sangue, nascia em suas costas. Sem raciocinar sobre o ocorrido, sentiu-se carregada para o invisível e, com o coração em febre, alçou vôo pela noite fria, deixando para trás uma chuva rala de sangue. Era a liberdade que se levantava ao vento, que se movia no compasso do seu ventre. Agora, sou eu quem me persigo, pensou, sonhando com um mundo novo, cheio de novas possibilidades. Perdeu-se no deserto. Exausta e com olhar cheio de espanto, viu uma nuvem de poeira tomar a forma de um belo homem. Era ele, o diabo. Ele a olhava de uma maneira que lhe fez gelar os ossos. Estou perdida, pensou desejando fugir dali. Tenho sede, ele falou docemente. Ofereço-te as minhas águas, não para matar a tua sede, mas para roubar a tua calmaria. E, por livre escolha, prendo-me em tuas pernas de fogo, rodeada de respostas. Esta noite, te amarei... Na tua sombra, esconderei os meus medos, aliviarei o meu pranto. Quando a luz nascer, gritarei ao mundo que ressuscitei no gosto das maçãs, respondeu, tentando fugir da solidão. Uniram os seus destinos. Sob o céu aberto, com gosto de vinho, as suas línguas, demoniacamente puras, uniram-se, acendendo fogueiras, penetrando mundos invisíveis, anulando o bem e o mal. Em busca do amor, ela ofereceu-lhe o que tinha de mais sagrado, a sua cruz: a sua boca, o seu sexo e os seus seios. E, nessa cruz, morreu por amor...
Depois de algumas horas, ela acordou. Procurou o seu amor e não o encontrou. As horas de loucuras impensadas deixavam, agora, uma enorme tristeza, um grande vazio no seu coração. Precisava fazer o céu voltar e com ele o seu amor. Procuro aquele que perdi, mas aquele que perdi não me procura, pensou sem desistir da sua busca. Passaram-se meses. Grávida, prestes a dar a luz, ela ainda o procurava. Arrancou-me o coração, os olhos, o sexo! Ávido de sangue, possuiu as minhas carnes e todas as noites, me persegue. Em fuga, o experimentei, e ele nunca mais sairá de mim, porque ferida de amor eu estou!, Pensou mergulhando na loucura.
Nesse imenso vazio, ela trouxe ao mundo o seu filho, o fruto do seu pecado. Em seguida, sentiu-se arrastar, por forças desconhecidas, invisíveis, até uma grande cruz . Nela, com o corpo em chamas, gritou em desespero: Deus, por que faz isso comigo? O amor e o pecado habitam em mim. É esse o meu castigo? O primeiro não me trouxe nada de bom. O segundo, intitulado Satanás, nada mais é que o meu instinto de viver. Por que me criastes imperfeita e com sabedoria? Porque me criastes das fezes, do excremento ao invés do pó puro? Não me livrei da luz, foi ela quem fugiu de mim... Sou feroz no amor como também no ódio. Quando entro numa rixa, não admito insultos. Maldita armadilha! Mesmo que, em minhas sucessivas vidas, queimem a minha anca viva, seguirei em busca do amor... Não tenho saída... Sabes que toda a alma almeja a companhia de outra que lhe complete... Maldito! Trouxestes o amor para o meu espírito feminino e, a partir desse momento, não haverá paz, nem para mim, nem para os homens!...
Nesse momento, o Diabo, observando-a ser consumida pelas chamas, flutuava sobre as águas, refletindo, nelas, a sua outra face, a sua porção divina, a sua imagem de Deus, que satisfeito com a sua criação, sorria, tremendo de felicidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Esquina do Mundo - A hora do Cão Lobo

Cláudia Magalhães

Três amigos; Um bar!
Amores, amizade, inveja, traicões...
O acaso rege o destino de homens e mulheres
Na esquina do Paraíso com o Inferno
Onde a hora é sempre dezoito horas
Hora do cão lobo
A esquina do Mundo
Um mundo à beira da tragédia
Regidas não por mãos humanas
Mas pelo incompreensível.


(Trecho da peça teatral "Esquina do Mundo - A hora do Cão Lobo")

Dezoito horas... Esquina do Paraíso com o inferno... Há pouco, o Sol beijou a lua e sob o canto suave da Ave Maria, eles fizeram juras eternas de amor. A Rainha da noite, excessivamente romântica, cheia de saliva, fez amor nos astros e estrelas, deliciou-se na boca do seu amante, virou música, verso, prosa... Ele vai embora. Vazio. Há pouco, ele a pegou por trás e ela sentiu toda a sua paixão escorrer pelo seu sexo, descer até a terra e formar um mar de sangue...
Esse sangue nos revela um prédio de um vermelho extravagante, onde, no térreo, funciona um bar popular, destes encravados nos becos das grandes cidades. De um lado funciona o salão com mesas e cadeiras muito simples, posters de time de futebol e cartazes com dizeres como "Protegido por Deus" e "Fiado só amanhã", do outro lado, separada por um enorme balcão, uma pequena cozinha. Em cima, dois kitnets, um de Rato e o outro de Zé e Ceição. Nos vários sets a vista: Esperança arruma o quarto de Rato e se arruma, incansavelmente; Zé, no seu quarto, bebe e olha fixamente para o relógio de parede; Gardênia cantarola na cozinha, exultante; No salão, Patrícia toma café com bolacha e escuta Rato, que sentado com os pés na lama, canta um chorinho acompanhado por dois boêmios que estão em uma mesa próxima; Teobaldo está sentado no meio da escada observando a lua que brilha incansavelmente no céu, cheia de tristeza, melancolia, poesia, contrastando, e por isso mesmo, enaltecendo a decadência do lugar.

(Salão do bar)


RATO:

Não me condene, não sou vagabundo

Nem tampouco vigarista

Sou um boêmio, um sonhador

Eu tenho alma de artista.

Na mistura do céu e do inferno

Encontrei a esquina do mundo

Da vida, do poeta,

Do doutor, do moribundo.

Aqui ele ri, ele chora,

Toma cana com limão e mel

Toma rum com coca-cola

Com os pés na lama

Olhando para o céu

Desabafa, se esfola

Vai afogando a sua dor.

É a Ribeira dos becos

Da lama, da amargura

Onde tudo e todo sentimento se mistura:

Fé, Cajú,

Sangue, Coentro,

Papa-Figo, Urubu,

Medo, Tormento,

Black-Out, Gentileza,

Virtude, Desalento,

Badalo, Fineza,

Tristeza, Lamento.


Cascudo, História,

Siqueira, Poesia,

Djalma, Vitória,

Navarro, Alegria.


Tributino, Destreza,

Carrapicho, Flores,

Zé Areia, Esperteza,

As Marias, Os Amores.


Coragem, Velocidade,

Loucura, Lambretinha,

Óvni, Verdade,

Nazi, Meladinha.

É do resultado dessa mistura

Que se faz esse lugar.

Venha, amigo, se sentar

Não precisa documento

Basta só ter sentimento

E entre uma alegria e outra

Um pouco de lamento

Porque daqui ninguém sai isento

Sem vontade de chorar!